Pular para o conteúdo principal

Eleitores que corrompem

Para esclarecer meu último post, irei republicar um artigo escrito por mim, que foi divulgado pelo Jornal de Hoje em novembro de 2005:

Eleitores que corrompem
por Nestor Burlamaqui

A culpa de um de nossos maiores problemas políticos, a corrupção, por vezes é apontada como sendo de inteira responsabilidade das próprias autoridades políticas. A princípio, essa idéia aparenta ser bastante lógica e a população geralmente recorre a esse pensamento para proferir críticas aos políticos brasileiros.

O que poucos sabem ou admitem é a existência de uma relação corrupta de interdependência entre o povo e o poder político. Trata-se de um processo onde uma parcela do próprio eleitorado corrompe as autoridades usando pressão eleitoral, criando assim, dentro dessa relação, uma norma a qual as autoridades não podem desobedecer sem serem punidas nas próximas eleições, quando provavelmente não obterão sucesso.

Fiquei sabendo de um caso que acontecia frequentemente numa cidade do interior do Estado e provavelmente talvez ainda ocorra. Quase que diariamente, uma fila de pessoas se formava em frente à residência da então prefeita. Essas pessoas surgiam pedindo dinheiro para o pagamento de contas de água e de luz, remédios, entre outros pedidos variados. A prefeita sabe que se não der o dinheiro, perde votos e talvez nunca mais tenha sucesso político novamente na cidade.

O critério de escolha de um bom governante não são seus promissores planos sociais ou futuros investimentos que visem ampliar o número de empregos, mas sim a capacidade que o candidato tem de pagar as contas de água alheias. Pouco importa se ele tiver que desviar dinheiro público para fazer isso. E era exatamente esse o boato que ecoava na cidade. Certamente, o fato de pagar a conta de dezenas ou centenas de pessoas por mês com o próprio dinheiro causaria um grande prejuízo pessoal para alguém que recebe o salário de um cargo eleitoral no interior do Estado.

Apesar de essa informação não passar de um boato, muitos acham isso bastante provável, levando em conta o nível de corrupção de nosso país. Fico longe de duvidar que comportamento semelhante talvez ocorra em várias outras cidades do Estado ou até mesmo na capital. Não tenho provas, mas meu objetivo aqui não é denunciar. Desejo apenas exemplificar a ajuda de alguns eleitores na perpetuação da corrupção política. Vejam que situação vergonhosa: mesmo que suba ao poder uma pessoa de comportamento intocável e plenamente honesta nessa cidade, a vida política desse cidadão estará seriamente comprometida caso ele não roube.

Dessa forma, o fim desse tipo de prática dentro de um país deve ser procurado não só entre os políticos. Citando o articulista Stephen Kanitz, “não serão intervenções cirúrgicas (leia-se CPIs), nem remédios potentes (leia-se códigos de ética), que irão resolver o problema da corrupção no Brasil”. Se o próprio povo brasileiro é corrompido e, como visto aqui, corrompe os outros, qual o direito que esse povo tem de reclamar de atitudes semelhantes, praticadas por seus governantes? Na verdade, tem todo o direito. Mas é uma reclamação bem incoerente.

Corrupção sempre existirá. Ela existe até nos países considerados mais honestos, mesmo que seja em menor escala. A diferença entre esses países mais honestos e o Brasil não está nos genes “mais evoluídos” ou “mais honestos” deles. A diferença é investimento em auditoria e fiscalização. Ainda lembrando Kanitz, precisamos da vigilância de um poderoso sistema imunológico que combata a infecção no nascedouro.

Talvez com um maior número de fiscais e auditores no Brasil, seria bem mais difícil corromper os poucos profissionais existentes nessa área. E os pequenos desvios de recursos públicos que acontecem no interior do Rio Grande do Norte provocados pelos eleitores; ou no Congresso Nacional, provocados por políticos; seriam, pelo menos, reduzidos.

Comentários

  1. Camila de Araujo9:59 AM

    Ei Netor muito massa essa materia to fazendo uma redacao bem parecida com o tema e to usando esse argumento, os politicos nao vieram de um planeta maligno e vieram roubar no Brasil, como eles mesmos dizem, eles vieram do povo e aprenderam com ele essa cultura individualista, de fazer tudo por dinheiro de ser corrompivel!!! Para o povo brasileio reclamar dos outros é otimo!!

    ResponderExcluir
  2. Muito obrigado Camila! É muito bom conhecer sua opinião também. Essa coisa é um fato. O brasileiro é um povo que reclama mas faz quase do mesmo jeito. Um abraço!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Malefícios e benefícios do Carnaval

O carnaval passou. Foi brilhante. Uma festa cheia de sensualidade, alegria e cores, símbolo da identidade brasileira e orgulho nacional. Mas será que o carnaval é benéfico para nosso país? Agora o caro leitor ou leitora deverá estar se perguntando também: será que vale a pena debater eventuais benefícios do carnaval? Afinal, o carnaval é apenas uma festa cujo único objetivo é divertir-se, esquecer por uns dias a realidade injusta, o trabalho difícil, o chefe incompreensível, o pouco dinheiro. De origem milenar, o carnaval nasceu na Grécia para celebrar os deuses da colheita para depois espalhar-se pelo mundo. Ao contrário do que alguns possam pensar, o Brasil, apesar de ser taxado como país do carnaval, não possui, de forma alguma, exclusividade sobre ele. Comparando a origem histórica com a prática atual, percebemos que o motivo da festa mudou. Antes era para celebrar a colheita. Hoje serve como "anestésico social". Portanto, vemos aqui um benefício carnavalesco: esquecer o…

Lei de talião e pena de morte no Brasil

Considero o princípio da lei de talião o mais justo de todos os princípios legais. Ele representa o equilíbrio. Afinal, não seria isso a justiça? É um princípio simples. E a simplicidade é o último grau de sofisticação. Por exemplo, se alguém mata intencionalmente uma pessoa inocente e por motivo banal, esse alguém deve ser morto.
Podemos complicar um pouco. Durante um hipotético (mas não tão hipotético) assalto, policiais e bandidos trocam tiros. Uma pessoa que passava nas proximidades é atingida e morta. Nossa lei preocupa-se em procurar a autoria do tiro que matou o inocente, quando isso é irrelevante a princípio. O que verdadeiramente importa é a autoria da intencionalidade que assumiu e provocou a morte. Não há dúvidas de que os bandidos saíram de casa assumindo a possibilidade de matar. Não os policiais. Logo, percebemos aí a intencionalidade de usar a força por meio da morte de uma alguém, independente de quem viesse a obstruir suas intenções criminosas. Logo, ainda que juridi…

Ciência de verdade ou fé nos cientistas?

No final de um documentário, o físico Stephen Hawking afirmou que a origem do universo pode ser explicada sem a necessidade de um criador e que, por consequência, poderíamos dizer que não existe vida após a morte. Eu admirava o Hawking, mais pela imagem de genialidade que nos é transmitida pela TV, mas depois dessa conclusão ilógica, tive uma decepção, mas foi bom, pois eu pude ver o quanto de fé está impregnada no atual mundo científico.


Após o advento iluminista, os cientistas começaram a adquirir o status de novos sacerdotes. Se antes o que a Igreja dizia era considerado a verdade, hoje, cada vez mais pessoas simplesmente acreditam no que os cientistas dizem, até mesmo em homenzinhos do espaço [1], sem fazer questionamentos. Se antes as verdades eram imutáveis (dogmas religiosos), hoje, algumas crenças com base na ciência alteram-se de uma década para a outra, às vezes num ritmo até mais rápido, como podemos constatar perante descobertas nutricionais. Ovo faz mal? Colesterol faz b…