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Israel, Líbano e o telejornalismo brasileiro

“Ataque israelense mata família brasileira”, imprimem os veículos de comunicação nos títulos das notícias mais recentes sobre o conflito no Oriente Médio. Será que vai começar tudo de novo? Em 2002 a mídia brasileira e internacional iniciou uma onde de ataques contra o Estado de Israel devido ao conflito local que esse país mantinha com os palestinos, mais especificamente por causa do agravamento da segunda intifada(revolta) palestina, iniciada em 2000. Lembro-me claramente das notícias altamente parciais a favor dos “pobres palestinos” que eram divulgadas tanto pela imprensa internacional quanto pelos meios jornalísticos brasileiros, acusando os “terríveis judeus” de um genocídio ou coisa parecida que, na verdade, inexistia. Bom, isso acontecia apesar de alguns acusarem os judeus de controlarem a mídia mundial. Acusações contra judeus nunca foram novidades. Ora, existem até aqueles que acham que eles controlam o mundo!

Nos jornais impressos e na internet a notícia sobre a morte da família brasileira é bem mais detalhada e imparcial do que aquela encontrada nas matérias televisivas. Como a notícia de televisão é mais espetáculo do que informação, os responsáveis por ela preocupam-se em destacar os pontos mais fortes e as imagens mais chocantes para o telespectador médio brasileiro, representado por aquele indivíduo de nível intelectual baixo que aumenta os níveis audiência, trazem anúncios, e que ainda recebem o apelido de Homer Simpson. “Se Homer não entender a notícia, ela não vai ao ar. Ainda precisa deixá-la mais simples”, disse um famoso apresentador de telejornal. Dane-se a informação, o que importa é a audiência. O fato de a família morta no Líbano possuir uma das nacionalidades brasileira e ter sido executada por militares judeus é o ponto de destaque. “Nossa! Os judeus estão matando até brasileiros!”, pensam alguns, mal informados por esse tipo de atitude da mídia. Para alguns telejornais, certamente aqueles de maior audiência, não importam detalhes como o fato de a família ser, de fato, libanesa e ter se naturalizado brasileira somente após alguns anos morando aqui. Nem o cônsul-geral do Brasil no Líbano soube informar em que período o casal viveu no Brasil, já que não há registro de sua passagem pelo país no consulado. Mas os telejornais transformam essa família de dupla nacionalidade em uma família legitimamente brasileira apenas para que os telespectadores identifiquem-se com ela e, dessa forma, fazer seu “shownalismo”. Também não importa se o ataque foi provocado pela irresponsabilidade, para não falar condescendência, do governo libanês em relação ao grupo terrorista Hezbolah, que se encontra em seu território. Quais forças fazem o senhor presidente Émile Lahoud ficar de mãos atadas perante esses fatos? Alguns especialistas no assunto afirmam que o governo libanês não tem força para controlar o Hezbolah e que ele precisaria de uma ajuda internacional para que isso fosse feito. No entanto, o governo libanês nem sequer tentou fazer alguma coisa além de pedir que Israel parasse de atacar. “Por favor, parem de atirar em nós, mesmo que vocês continuem sendo mortos”. Temos que concordar que esse pedido é “um pouco” complicado e alguém tem que fazer alguma coisa. Afinal, normalmente, ninguém é agredido sem reagir.

Voltando para a questão do tratamento das mensagens televisivas, um dia ainda espero ver a chamada de uma notícia assim: “Ação do Hezbolah provoca morte de brasileiros”. Mas talvez esse dia não chegue nunca, pois é um título complicado demais para o povão brasileiro. Homer não entende. Afinal, quem sabe o que é Hezbolah? Além disso, essa chamada não seria tão fiel ao que realmente ocorreu. Então vejamos essa: “Conflito entre Israel e Líbano mata família brasileira”. Agora sim o título reflete com mais veracidade a tragédia da família, cuja culpa recai sobre os dois países, além do Hezbolah, é claro.

Além desse problema encontrado nas telenotícias, o título ou manchete é muito importante também nos jornais impressos. Apesar de ser mais explicativa, as notícias impressas não costumam ser lidas na íntegra. Muitas vezes o leitor do jornal simplesmente passa os olhos sobre os títulos para ver se encontra algo que lhe interesse. Por exemplo, se o leitor está mais preocupado na situação do crime organizado em São Paulo, ele apenas colherá a informação sobre o conflito no Oriente Médio baseando-se apenas no título: “Israel mata família brasileira”.

Como observamos, com o objetivo de oferecer uma notícia espetáculo – ou “shownalismo” - ao telespectador médio brasileiro, as emissoras acabam manipulando uma realidade que termina influenciando a opinião de todos os telespectadores do país. Opinião essa que, por mais vezes do que deveria, acaba denegrindo o Estado de Israel e os próprios judeus, auxiliando assim a perpetuação do anti-semitismo e também contribuindo para a falta de qualidade no telejornalismo brasileiro.

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