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Fenômeno Miguel Mossoró, o temor dos poderosos

Nestor Burlamaqui

Este texto é dirigido para aquelas pessoas que ainda não compreendem ou insistem em combater fenômenos políticos do tipo Miguel Mossoró, que em 2004 – apesar de apresentar propostas fantásticas e uma postura brincalhona - alcançou um inédito e expressivo terceiro lugar nas eleições para a prefeitura de Natal/RN, deixando candidatos como Fátima Bezerra (PT) e Ney Lopes(PFL) para trás.

Na última sexta-feira(13/06), li um artigo chamado “Recado aos jovens de espírito”, publicado no mesmo dia, na Gazeta do Oeste. De uma forma geral, o texto defende uma postura séria dos jovens frente ao poder do voto. Indica uma fuga da realidade por parte dessas pessoas, que votam em candidatos supostamente desqualificados e com promessas fantásticas: pontes que cruzam oceanos, leite encanado para a população etc.

Eu entendi que o artigo reflete uma opinião em defesa dos atuais donos do poder político, que desejam evitar coisa semelhante ao que ocorreu em 2004 nas próximas eleições. Naquela ocasião, os candidatos que competiam com Miguel Mossoró tremiam de medo de uma vitória do ilustre candidato. E com razão.

Sabemos (todos nós, inclusive os jovens) que as eleições são teoricamente um processo de extrema importância para uma sociedade democrática que preste. Então é óbvia a seriedade com a qual o voto deve ser usado. Não é mesmo? Nem sempre, pois só ingênuos encaram com seriedade um processo de escolha cujas opções possuem – no mínimo – idoneidade duvidosa. Afinal, estamos falando de políticos brasileiros. No caso do Rio Grande do Norte, a situação piora ao vermos que – de uma forma geral – todas as opções são membros ou aliados de um mesmo grupinho de famílias. É inevitável. Muito ouvimos que – publicamente – membros do governo e da oposição se acusam, criticam-se, entram em conflito. Mas logo após os debates, vão todos comer e beber juntos (afinal, são primos), vangloriando-se de como conseguem manipular o povo.

Na verdade, e isso é o pior de tudo, uma grande parcela dos próprios eleitores não são enganados, mas simplesmente vendem seu voto. Outra boa parcela, que não precisa vender seus votos nem são manipulados pelos candidatos, prefere não votar. Porém, essa parcela é obrigada a votar, pela lei brasileira. Como não querem votar em nenhum dos candidatos –visivelmente incapazes de administrar alguma coisa com seriedade – buscam uma saída. Qual a saída? Voto nulo; em branco. Quando surge uma alternativa que encarna seus sentimentos de revolta em relação aos candidatos de sempre, melhor ainda: Voto de protesto. É uma forma eficaz de mostrar para os políticos que as pessoas não são tão idiotas e manipuláveis como eles gostariam que fossem.

Em suma, a questão vai além de uma simples brincadeira de jovens inconseqüentes. Trata-se de uma forma de se expressar através do voto. Uma forma de comunicar que está errado. Uma forma de dizer que está na hora de trabalhar direito. Está na hora de parar com a corrupção, com a enganação, com a hipocrisia. Está na hora de mudar de verdade.
Logo, percebe-se também que um dos motivos para que esses fenômenos tipo Miguel Mossoró existam, é a obrigatoriedade do voto. Muitos pensam: “Se me obrigam a votar, votarei em nulo, em branco, ou melhor: se nenhum deles governa com seriedade, também não votarei seriamente: Miguel Mossoró!” É verdade. Lembro de 2004. Eles morrem de medo.

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