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Baixaria agora é moda.

Não é de hoje que percebo uma redução nos valores morais em nosso país, um aumento generalizado na pobreza de espírito e na valorização da baixaria instintiva de cada um de nós. Alguns podem dizer que isso talvez seja apenas uma impressão minha, e que o brasileiro sempre foi assim e que a coisa estaria mais visível apenas por causa da popularização da internet. Bom, discordo parcialmente.

A popularização da internet não é apenas um fenômeno que expõe de forma generalizada determinados comportamentos considerados imorais (consumo de drogas de todo tipo, desvalorização da mulher, práticas sexuais inusitadas, comentários agressivos desnecessários etc). Essa popularização possuiria também um papel crucial num processo de destruição de normas relacionadas à moral dos indivíduos em nossa sociedade, num efeito semelhante ao processo de informalização, no qual as pessoas passaram a agir de forma mais informal, como relata Steve Pinker1.

Enquanto o processo civilizador foi um fluxo de normas e maneiras das classes altas para as mais baixas (o que reduziu drasticamente os homicídios na Europa desde a Idade Média), o processo de informalização - ocorrido a partir do fortalecimento da democracia nos países ocidentais - foi o contrário, afetando a forma como as pessoas se vestiam, a linguagem e a conduta, de modo que, hoje, vestir-se com sapatos e calça social é motivo para o riso em vários grupos; e o respeito ao próximo reduziu-se de uma forma que vai muito além de simplesmente chamar os outros pelo primeiro nome no lugar de "senhor" ou "senhora".

Um exemplo dessa coisa é o caso de Ruth Lemos. Em 2006, a nutricionista virou piada na internet após protagonizar uma entrevista na qual ela falava, com uma hilária dificuldade, a respeito dos valores nutricionais de um sanduíche. Naqueles tempos, um conhecido me repreendeu por eu estar rindo da pobre mulher. Afinal, ela deve ser uma pessoa honesta e deve ter uma família; e ser ridicularizada publicamente certamente pode possuir um efeito prejudicial em vários aspectos, começando pelo psicológico. Nada mais sensato! De fato, divertir-se com esse tipo de coisa e ainda por cima espalhar por aí na intenção de fazer os amigos também rirem da mulher não é algo a se ter orgulho. Assemelha-se muito com o comportamento de crianças praticando bullying, não é mesmo?

De forma contraditória, hoje em dia, a mesma pessoa faz pior do que eu, divulgando videos semelhantes sem qualquer tipo de cerimônia. O que aconteceu? É claro que não podemos pegar o exemplo de uma pessoa e dizer que todo mundo mudou, mas há indícios de que as pessoas em geral estão realmente mudando seu comportamento e deixando seus princípios para lá, adotando apenas o que a "maioria" dita2.

Outro exemplo, mais recente, é o caso "Leo e Fabíola". Falo dele aqui não para debater quem tem menos razão nessa história (como muita gente faz por aí), mas sim para criticar o próprio fato de todos nós termos perdido um bom tempo nos divertindo e comentando a tragédia alheia. Já faz um bom tempo que perdemos a noção de caráter. O pior mesmo é que, se você não souber do caso, será chamado de desatenado, sendo prontamente pressionado a participar da falta de caráter dos outros. Gostar de baixaria virou moda.

Isso sem falar em indícios mais óbvios, como o aumento no consumo de drogas (especialmente cocaína e derivados), o aumento da criminalidade e da violência; isso sem falar nos inúmeros vídeos de cunho privado, cada vez mais divulgados na internet. Menininhas de 14 anos que dançam funk carioca até o chão e com pouca roupa, no Youtube, certamente estão longe de se respeitarem. Aliás, qualquer mulher ou homem que se rebaixe ao nível de se enxergar apenas como um corpo está longe de se valorizar, mas o problema maior não é eles fazerem isso e divulgarem na internet, mas sim o fato de coisas desse tipo estarem sendo imitadas, consideradas algo exemplar.

Como já comentei, esse fenômeno de empobrecimento moral pode ser explicado por um processo no qual as normas de comportamento estão indo de baixo para cima, onde as pessoas que possuem comportamentos e atitudes mais nobres começam a adotar comportamentos vindos da "ralé moral", que não seria necessariamente a ralé econômica, os pobres, pois é sabido que tem muito rico sem vergonha por aí.

A popularização da internet e dos smartphones faz com que normas e comportamentos de todo o tipo se espalhem por toda a população, com pouco ou nenhum filtro. Enquanto nas mídias tradicionais (rádio e TV) essa destruição de normas morais tenha sido sempre presente (em nome do lucro e da audiência), ela possui um mínimo de um filtro que seja (nem que seja pelos códigos deontológicos), mas não podemos esquecer de quadros televisivos estilo Banheira do Gugu ou Pânico na TV e de músicas com letras de cunho sexual que enaltecem comportamentos de farra descompromissada: "beber, cair e raparigar", "novinhas descem até o chão e eu tô ostentando", e coisas do tipo, que tocam a todo instante nas rádios mais populares do Brasil inteiro.

O que podemos aprender com tudo isso é que há uma pequena possibilidade de isso ser revertido, pois os mesmos instrumentos que são usados para empobrecer nossa população tão rapidamente com normas da baixaria e da "vida lôka" podem ser direcionados para enriquecê-la com comportamentos e valores nobres. Sabemos que as chances são pequenas, pois a tendência é que tudo piore mesmo, garantindo que o futuro Brasil seja um péssimo lugar para se viver, pelo menos para gente com um mínimo de decência. Calma! Não seria motivo para se desesperar, mas sim para começar a fazer o contrário.

As pessoas deveriam ter orgulho de suas convicções e começar, de alguma forma, a usar a internet para espalhar normas e valores nobres e tradicionais de respeito a si mesmo e ao próximo, que tantas pessoas ainda possuem, mas tem vergonha de demonstrar. Um dos obstáculos para isso é o fato de que as religiões, uma das maiores difusoras de normas e comportamentos respeitáveis, estão ficando fora de moda. Ridicularizadas desde meados da década de 1960, via mídia de massa, em mensagens criadas pela nova esquerda, as religiões judaico-cristãs - a base moral da nossa civilização - nunca foram tão menosprezadas, como podemos ver no sucesso de programas humorísticos do tipo Porta dos Fundos, que fazem piadas pesadas contra o cristianismo, mas não falam nada contra as "minorias", o grupo mais sagrado da atualidade. Criticar o comportamento homossexual usando piadinhas pode custar caro, um processo judicial ou, no mínimo, uma chuva de xingamentos virtuais. Agora fazer piada do papa ou de Deus parece não ter problema algum.

Portanto, quando estiver gargalhando, divertindo-se com a traição alheia, compartilhando videos íntimos dos outros, ou coisas do tipo, mostrando para seus amigos e tudo o mais, saiba que você está apenas juntando-se ao grupo cada vez maior da ralé moral brasileira, espalhando ainda mais as normas que cada vez mais prejudicam nosso país.

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[1] Veja mais na obra "Os anjos bons de nossa natureza", na qual Steve Pinker descreve as razões pelas quais a violência diminuiu no mundo inteiro, por meio de certos instintos humanos.

[2] Coloquei a palavra maioria entre aspas, pois pode ser uma aparência de maioria, onde os indivíduos apenas acreditaram que aquele comportamento é seguido por muitas pessoas e que fazer o mesmo lhe faria receber recompensas sociais.

[3] Veja mais na matéria "Popularização dos smartphones incentiva novos empreendimentos", publicada em 01/12/2014, no site da Folha de S. Paulo.


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