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Será que é racismo?

"Palestrante negro é barrado em portaria de hotel cinco estrelas que sedia seminário em São Paulo”.

Esse foi o título de uma matéria publicada no dia 28/08/2015 por diversos sites. O palestrante era Carl Hart, professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia que veio ao Brasil participar de um seminário criminal. De acordo com a notícia, ao começar sua fala no evento, ele teria dito: "Olhem para o lado, vejam quantos negros estão aqui. Vocês deviam ter vergonha". Segundo a matéria, não havia nenhum negro na plateia. Até mesmo o organizador do evento, Sérgio Salomão Shecaira, teria dito: “É bom para mostrar como vivemos em um país racista”.

O problema é que a matéria era falsa.

Carl Hart estava no hotel e realmente iria participar de uma palestra, mas ele não foi barrado e o organizador do evento também não fez tal declaração. Isso, claro, nos leva a outras perguntas, como: A quem interessa a criação de uma mentira desse tipo? A quem interessa a imagem de um Brasil repleto de racismo? Já falei, no último post, a respeito da tentativa de gerar conflitos na sociedade brasileira por meio da polarização de opiniões.

A matéria possui características encontradas em outras notícias “baseadas em fatos reais” e nos serve de ponto de partida para realizar uma análise mais apurada sobre o racismo no Brasil.

Uma dessas características é a forma de enquadramento, visível já no título: “Palestrante negro…”, semelhante a outras notícias que vemos por aí: “Professor homossexual é atropelado…”, “Travesti é assassinado…” etc., onde a pessoa objeto da matéria adquire uma identidade que se adequa à uma das minorias criadas pelo politicamente correto, já com a clara intenção de sugerir que a pessoa foi agredida/morta/discriminada apenas pelo fato de ser gay/negro/pobre. Quer dizer, as pessoas não são mais, médicas, advogadas, professoras ou secretárias. Muitas vezes elas perdem o nome e a história de sua vida para serem classificadas, por uma parte da mídia, conforme certos interesses.

Esquecendo-se um pouco dessas intenções de se criar a imagem de um Brasil racista, homofóbico e elitista burguês, vamos nos concentrar aqui na questão do racismo em si, a qual acredito que seja mais complexa do que muitos querem nos fazer imaginar. Além de muitas vezes um comportamento denunciado como racismo não o ser de fato, ainda existem outras possibilidades, que vão desde uma segregação não intencional, passando por uma discriminação não racial e até mesmo podendo ser um fenômeno que eu costumo chamar de "racismo seletivo”.

RACISMO SELETIVO
Em agosto de 2014, alguns torcedores gremistas chamaram o goleiro santista de macaco durante partida realizada pela Copa do Brasil. O caso recebeu grande atenção da mídia, ao ponto de Patrícia Moreira (a primeira torcedora a ser identificada por meio das câmeras) ter sua casa queimada num incêndio criminoso e ao ponto de ela ser afastada do emprego.

Mesmo que esse fato seja considerado racismo, ele é - claramente - um racismo seletivo. Acredito que, no Brasil, mais do que ser um racista pleno, a maioria dos indivíduos seriam racistas seletivos, usando xingamentos desse tipo apenas quando lhes convém.

Afinal, não seria estranho xingar o goleiro do Santos enquanto não se diz nada a respeito dos jogadores negros do Grêmio?

Sim, na época o Grêmio possuía alguns jogadores negros e, pelo que pude observar no site do clube, acredito que hoje possua ainda mais. Segundo esse tipo de racismo, os jogadores negros dos outros são macacos, mas os nossos são lindos.

DISCRIMINAÇÃO NÃO RACIAL
Existem diversos tipos de preconceitos e discriminações no mundo. No Brasil, isso não é diferente e nossos preconceitos vão muito além daqueles que geraram alguma representação política (racismo, sentimentos anti-gay, discriminação contra a mulher etc). É fácil confundir, por exemplo, uma discriminação de classe ou de grupo, com discriminação racial, pois os brasileiros mais pobres possuiriam mais ancestrais negros, como constatam vários estudos nesse sentido.

No entanto, num simples exercício de imaginação, podemos verificar o quanto de discriminação racial possuímos.

Por exemplo, em qual destas situações você teria mais receios: avistar um grupo de dez negros usando ternos e carregando maletas de trabalho ou ver aproximar-se um grupo de dez brancos adolescentes vestindo-se como delinquentes?

Ou imagine-se sendo abordado por um bando de brancos maltrapilhos e cambaleantes. Antes fosse um grupo de universitários africanos. Não é mesmo?

No Brasil, mais do que julgar ou discriminar as pessoas apenas pela cor da pele, como pensam algumas pessoas, discrimina-se mais pela classe social e pelas aparências. Um branco cheio de tatuagens e piercings sofre muito mais preconceito numa entrevista de emprego do que um negro que se enquadre visualmente no estereótipo empresarial.

SEGREGAÇÃO NÃO INTENCIONAL
Em 1971, o economista Thomas Schelling, ganhador do prêmio Nobel, publicou um trabalho chamado “Dynamic Models of Segregation". Segundo ele, as pessoas se separam umas das outras seguindo diversos critérios (sexo, idade, idioma, etnia, religião, gostos, costumes etc). Algumas segregações são intencionais. Outras não. Por exemplo, segundo Schelling, num ambiente de brancos e negros, um comportamento que poderia ser interpretado como sendo discriminação racial pode surgir a partir de preferências simples de ambos os grupos. Nesse sentido, a existência de bairros negros e bairros brancos nos Estados Unidos não seria uma política racista das autoridades, assim como não é intencional a existência, em Natal, de uma separação de classe no decorrer da Praia do Meio, indo até a Praia do Forte. À medida em que se aproxima do Forte dos Reis Magos, a renda per capita eleva-se entre os frequentadores da praia, ao ponto de, na Praia do Forte, assistirmos algumas pessoas passeando de jetski.

Acaso algum ativista do movimento negro analisasse a cor da pele dos indivíduos e comparasse a Praia do Meio com a Praia do Forte, poderia fazer uma denuncia de segregação racial, sendo que os mais brancos não são proibidos de frequentar a Praia do Meio, nem os mais negros são impedidos de frequentar a Praia do Forte. O que ocorre é mais uma questão de preferência entre os indivíduos, cujos critérios são mais relativos à renda do que à cor da pele.

Afinal, todos nós nos sentimos mais à vontade quando estamos perto de quem é mais parecido conosco, fisicamente e intelectualmente, sem que isso represente uma discriminação intencional e reprovável.

Por essas e por outras, é sempre bom analisar com mais cuidado, tanto a veracidade de notícias divulgadas na internet quanto casos desse tipo, antes de ir classificando as pessoas como sendo racistas, pois elas podem estar apenas seguindo preferências que não tem nada a ver com etnia, ou praticando tipos de discriminações e preconceitos aceitáveis, como é o caso de evitar situações problemáticas e perigosas.

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