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Como a Imprensa Alimenta o Crime Organizado


Sempre que fico sabendo de algum boato escabroso pelas "mídias sociais", pergunto-me: "Isso está nos jornais?". A imprensa - embora não seja plenamente confiável - ainda é uma espécie de porto seguro para o que ocorre no mundo à nossa volta, especialmente agora, com a popularização das chamadas novas tecnologias. Os jornalistas precisam apurar tudo o que é publicado e essa é a prática mais comum, o que torna a informação bem mais confiável do que uma mensagem de texto ou de áudio que chega - não sei de onde - ao meu smartphone. Afinal, sempre é bom evitar o que ocorreu na noite de 17 de março de 2015, em Natal-RN, quando boatos divulgados via smartphones causaram pânico em grande parte da população. No entanto, essa mesma imprensa - mais ou menos aprisionada na lógica de produção de notícias e nos critérios de noticiabilidade - termina por prejudicar a população de outras formas, ajudando, por exemplo, no aumento da criminalidade violenta advinda de grupos criminosos; mas isso não seria - necessariamente intencional. 

O que ocorre é que a imprensa - por meio de uma relação simbiótica com os grupos criminosos, a qual já foi confirmada por alguns estudos acadêmicos - acaba servindo como uma propagandista ou uma assessora de marketing institucional para essas "organizações", recompensando seus crimes, ameaças e atentados com reconhecimento, fama e prestígio.

A maioria das quadrilhas de criminosos não precisa, nem quer, que os outros saibam de sua existência. No entanto, grupos que demandam direitos para presidiários - assim como são as maiores "organizações" do crime no Brasil -  preocupam-se em aparecer para as câmeras e serem ouvidas por todos os cantos do país, como percebemos claramente em 2006, quando um grupo sequestrou um repórter da Rede Globo no intuito de obrigar a divulgação de um vídeo contendo um “manifesto” criticando o governo de São Paulo a respeito da situação carcerária no estado, e conseguiram. O vídeo divulgado pode ser encontrado na internet. Tradicionalmente, tais "organizações" recorrem a ameaças de rebeliões em presídios. No entanto, mais recentemente, têm recorrido também a ataques contra a população das cidades, incendiando ônibus e abrindo fogo contra patrimônio público, dentre outras ameaças mais agressivas que trazem medo para toda uma população, adotando um modus operandi obviamente terrorista.

Os bandidos sabem que a imprensa não demora em divulgar seus feitos, incluindo detalhes do motivo dos ataques e as exigências da quadrilha. E a imprensa faz isso porque notícias desse tipo dão muita audiência e vendem muito. É uma simples lógica de mercado que faz a simbiose ocorrer. “Vamos tocar o terror na cidade. Certamente a imprensa vai noticiar e seremos ouvidos”, pensam os bandidos. A estratégia deles é exatamente essa. Ganham os bandidos e a imprensa numa mesma tacada. Eis a simbiose!

No intuito de alavancar as vendas de jornais, alguns colegas pintam um quadro da situação bem pior do que é de fato, escrevendo manchetes como: “Bandidos tocam o terror em vários pontos da cidade”, quando na verdade foram apenas três focos de incêndio leve, sem vítimas e com pouco dano material. Embora tenha causado medo nos consumidores de notícias, não houve terror real, mas isso ampliou as vendas e fez propaganda do grupo criminoso x em troca de prejuízo material e psicológico para a população.

Ora, faz tempo que os programas policiais sensacionalistas se espalharam no Brasil inteiro, servindo de trampolim para carreiras políticas de alguns de seus apresentadores mais populares, o que nos faz pensar que, de fato, muita gente sobrevive e lucra com a indústria jornalística baseada no crime. Logo, muita gente perderia dinheiro se no Brasil se instalasse um clima de paz; e não seriam apenas os bandidos.

Sabendo disso, as redações verdadeiramente compromissadas com o bem estar da população deveriam adotar medidas de modo a minimizar os efeitos nocivos que a própria lógica de produção de notícias provoca. As entidades competentes deveriam discutir a respeito de quais medidas seriam essas. Será que é necessário a população saber as exigências das "organizações" criminosas? Até que ponto precisamos saber que se trata de crimes praticados pela “facção” x ou y? Ou até que ponto é necessário divulgar que houve participação de uma determinada quadrilha, se é justamente esse tipo de propaganda o que eles desejam? Até quando a mídia precisa participar desse tipo de relação? Afinal, a princípio, um grupo criminoso só existe na cabeça de seus membros. É óbvio que ela não possui qualquer tipo de existência jurídica. Quando vão perceber que é justamente a imprensa que legitima a própria existência desses grupos criminosos, dando-lhes voz e, consequentemente, reconhecimento perante o público? Recentemente, a revista Veja divulgou uma matéria dedicada a um desses grupos de delinquentes, fazendo propaganda de seu nome, dando detalhes de seu "código de ética" e ressaltando os principais pontos de seu "estatuto".

É por meio da ampla divulgação de um ou vários crimes que grupos terroristas passam a ser reconhecidos publicamente, como vimos no caso do Massacre de Munique, no qual o grupo terrorista Setembro Negro sequestrou e matou atletas israelenses durante os jogos olímpicos de 1972, em Munique, um evento transmitido mundialmente. Após negociações, os três terroristas sobreviventes foram libertados e deram uma entrevista coletiva na Líbia. Quando perguntados sobre o que eles teriam conseguido com a operação, Mohamed Safady, um dos membros, respondeu: “Fizemos nossa voz ser ouvida pelo mundo”. Ou seja, o crime é recompensado com a fama, que é o que eles realmente querem.

Mesmo que este artigo não venha a sugerir os detalhes das medidas a serem adotadas pelos jornalistas - as quais se mostram relativamente urgentes - acredito que elas devem incluir a implantação de filtros e limitações à informação divulgada, de modo que o efeito simbiótico seja anulado, cessando-se os benefícios de propaganda (dentre outros), que as notícias normalmente concedem a essas quadrilhas quando divulgam seus feitos. Ao mesmo tempo, deve-se manter a utilidade da informação para os cidadãos. Por exemplo, no lugar de divulgar que a facção criminosa Gangue da Pesada está tocando o terror na cidade em troca de mais visitas íntimas para presidiários, seria interessante publicar apenas que delinquentes atearam fogo em veículos. Dizer o nome de um grupo ou sugerir a participação de tal grupo e ainda dizer o que eles querem já é propaganda, assessoria de imprensa e marketing institucional, um desserviço que a imprensa está fazendo para todos nós.

Uma vez que essas medidas fossem adotadas, imediatamente esses grupos criminosos perderiam grande parte de sua influência, pois eles não teriam mais como orgulhar-se de eventuais atentados que perpetrassem, deixando de sentirem-se como “estrelas de cinema”, como diria o agente israelense Steve, personagem do filme Munique(2005), ao ver a entrevista coletiva dos terroristas sendo transmitida ao vivo, para o mundo inteiro. Sem a mídia para divulgar suas propagandas, mensagens e ameaças, perderiam a voz. O terror de ônibus incendiados seriam atos de meros "delinquentes", os nomes de suas "facções" seriam esquecidos e suas exigências descabidas cairiam no absoluto silêncio do anonimato.

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