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Do pensamento complexo e da ciência

Para se estudar um método científico é preciso, antes, analisar o local onde esse método é aplicado: nossas mentes. Não falo aqui de psicologia. O que quero saber é por que os homens pensam como pensam, ao ponto de querer descobrir como funciona o mundo ao seu redor. É claro que os motivos pelos quais os homens ou qualquer outro ser vivo adquiriram suas características atuais são claramente darwinianos. Se o cérebro humano faz comparações, análises, combinações, é porque isso o beneficiou biologicamente em relação à espécie antecessora, nossos ancestrais mais imediatos na escala evolutiva.

O pensamento humano é limitado. Talvez até possamos ser criativos hoje, mas essa criatividade é, inconvenientemente, reduzida a um conjunto visível de operações. É algo tão decepcionante que até mesmo enquanto falamos sobre pensamento humano, como faço agora, estou preso à essas limitações das quais falo, tentando livrar-me delas. Portanto, a princípio, estou errado. Sim, estamos todos errados. De cientistas sociais à físicos quânticos, não temos muita certeza de muita coisa. Mas estamos tentando. E são essas tentativas que nos levam a um lugar cada vez melhor – ou não – na luta pela sobrevivência no planeta. O homem não é ruim porque domina a Terra, pois foram as próprias condições de vida na Terra que levaram o homem a desenvolver um tipo específico de pensamento que o leva a um determinado curso de desenvolvimento, seja ele moralmente bom ou não. Além do mais, não há nada mais flexível do que a moral.

Enfim, se, num certo nível, estamos errados em nossas conclusões sobre a realidade, em outro nível estamos completamente corretos. Sim, nossa mente não evoluiria em vão para algo inútil. Nossa forma de pensar busca, ou deveria buscar, nossa felicidade, nosso conforto. E é aqui onde encontramos a dúvida em relação ao papel da ciência. Ela deveria ser usada para melhorar nossas vidas ou apenas como uma ferramenta para destrinchar uma realidade inalcançável? Nossos cérebros são limitados. Eles podem até perceber que existe uma realidade estranha, complexa, ambígua e caótica, mas talvez ainda não esteja preparado para destrinchá-la, pois, quando muito, não passará de tentativas – em vão – de se descobrir algo com olhos erradamente humanos. Nossos olhos são muito mais preparados para visualizar, analisar e combinar elementos mais coerentes, objetivos e ordenados, do que encarar essa verdade complexa e inatingível. No máximo, o que teremos como resultado será uma redução simplista e equivocada de algo bem mais complicado do que podemos imaginar. E estaremos, sem querer, retornando à nossa velha e confortável forma de ver padrões, constantes, causa e efeito: a linearidade no complexo.

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