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O problema dos alunos de filosofia

Muitas vezes a culpa de nossos problemas e conseqüentes fracassos é nossa. Mas não falo de uma culpa consciente. Os atos que ocasionam nossos problemas são realizados por nós, mas sem maldade, sem intenção de fazê-lo. Na verdade, nossas intenções, quando existem, são até boas. Seguem um raciocínio compreensível e teimoso. Mas isso não significa que a culpa inexista.

Quando estou no campus universitário e observo certos alunos, dentre eles os do curso de filosofia, e que se vestem de forma alternativa, não vejo apenas jovens tentando mostrar para os outros que são diferentes, que pensam diferente, que são “esclarecidos” e que são contra a classe dominante, ou contra a “sociedade alienante”. Eles não sabem, mas, além de estarem baseando seu próprio visual e conseqüente imagem social por meio de uma relação direta de oposição com o grupo que eles dizem desprezar, estão simplesmente aderindo uma das inúmeras identidades criadas pelo capitalismo que tanto odeiam. É verdade. Não lembro de ter visto retratos de Karl Marx usando roupas estragadas ou sujas ou vários brincos na orelha ou de cabelo pintado de roxo. Nem lembro dos guerrilheiros sul-americanos, símbolos de luta e revolta ao capitalismo, usarem coisas assim. Tatuagens, roupas e acessórios. Hoje em dia, Che Guevara virou ícone de consumo. Compre uma camisa com a estampa do Che e comunique sua revolta contra a sociedade. Posso até estar misturando nesse relato algumas identidades distintas, mas elas todas, que muitos conhecem como as “diversas tribos”, são apenas diversidades do mundo capitalista contemporâneo, como fala a estudiosa Ellen Wood. Não sou eu que estou inventando. Tudo isso parece não ter relação com o que falei no início do texto, mas tem: é o aspecto inconsciente. O mundo atual criou espaços e identidades nos quais a esquerda, ou essas tais tribos de revoltados, pode atuar. Mas, na verdade, essa atuação implica o consumo. Consuma e seja. Se não consumir, se não comprar a camisa do Che você é um alienado e um dominado da classe dominante. No fim, trata-se de uma escolha impossível: comprar ou comprar. O que, de fato, não chega bem a ser uma escolha, mas uma imposição invisível. E, por essa realidade ser invisível, os coitados dos revoltados não passam de indivíduos dominados pelos conceitos que eles tomam emprestado, sem saber, dos dominantes que eles pensam estar “questionando”. Como disse, é algo inconsciente.

E além disso, o que acho mais engraçado, é que a tal revolta tem por causa eles mesmos e essa situação de aprisionados a seus discursos e conceitos limitados. Eles mesmo provocam seu fracasso. Daí vem a culpa. Mesmo se considerando tão esclarecidos, não enxergam muito abaixo de seus narizes. Um exemplo é visto no curso de filosofia das universidades brasileiras. Há professores que incentivam os alunos a se tatuarem, se vestirem de forma escandalosa e desleixada, afirmando uma ligação do curso com o visual ou com uma determinada "atitude" dos alunos. Não sei se esses professores sabem, mas esse tipo de atitude de desencaixe social não ajuda muito. Na verdade, a relação de identificação de roupas espalhafatosas com o curso de filosofia - além de provocar, no máximo, um inútil desconforto alheio - não possui qualquer tipo de lógica filosófica. Seria compreensível esse tipo de comportamento se Platão ou Aristóteles usassem roupas estranhas ao seu tempo; ou se Baruch de Spinoza , Pierre Bourdieu ou Edgar Morin usassem tatuagens ou piercings ou penteados ridículos. Realmente, é algo sem explicação. Por favor, alguém me explique.

No fim, o que vemos é a mera reprodução de conceitos que desmoralizam um curso tão importante para o pensamento humano, como é o de filosofia. Não seria necessário descrever aqui, em detalhes, essa importância, mas quando se trata de Brasil, onde aqueles que se dedicam a estudar essa área essencial para a compreensão de tudo são considerados malucos, revoltados e fracassados, só vejo aí a já denunciada reprodução arbitrária da imagem de um curso por certos motivos ainda a serem analisados. Análise que renderá boas dores de cabeça para aqueles que se beneficiam dessa reprodução. A própria imagem do curso, mantida também pelos próprios alunos e professores, atrai e cria mais e mais alunos com o mesmo perfil derrotista e revoltado que, invariavelmente, e por não compreenderem a própria importância de seu curso, encontrarão, com sorte, um futuro profissional medíocre e reforçarão a injusta imagem de mediocridade que o estudo filosófico possui no Brasil.

Comentários

  1. Certeza! Já observei isso. Mas não é só em filosofia. Na maioria dos cursos da UFRN os estudantes aderem a esse tipo de moda para passar a imagem de intelectual revolucionário.

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