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A causa de Valério Mesquita

Quarta-feira eu estava passeando pela livraria de um shopping de Natal e vi um livro que lembrou-me de um debate que travei - se não me falhe a memória - em meados de 2003 com o escritor Valério Mesquita. O livro era dele. O título é "Em defesa da fé cristã" e contém diversos artigos publicados nos jornais de Natal.

Peguei o livro e o folheei rapidamente, em busca do artigo que provocou o dito debate: "A causa palestina", publicada no Jornal de Hoje . Encontrei. Estava lá. Mas não tinha a minha "Resposta ao racismo", publicada no mesmo jornal como uma forma de atacar a mensagem divulgada pelo artigo do escritor. Não tinha nem um comentariozinho sobre a pequena confusão que aquele artigo em particular provocou. Depois da minha resposta, o escritor publicou outro pra me rebater: "O censor das arábias", onde ele confessou ter passado maus bocados por causa da minha resposta mas insistiu nos argumentos anti-semitas. Depois dessa, publicaram outro artigo meu: "A outra resposta", que nos dá uma boa visão de tudo o que aconteceu:

A outra resposta
Por Nestor Burlamaqui (nestormedeiros@hotmail.com)

Mais uma vez, retorno a esse jornal para apenas relatar esclarecimentos aos leitores e ao escritor Valério Mesquita, que publicou um artigo demonstrando previsível e saliente incômodo após ler um artigo meu intitulado “Resposta ao racismo”, que já foi motivado por outro artigo dele chamado “A causa palestina”. Enfim, já está se iniciando uma espécie de “bate e rebate” sem fim, nem solução. No entanto, reafirmo que apenas escrevi aquele artigo para fazer cair a mensagem anti-semita mostrada em “A causa palestina”. Afinal, é inaceitável que uma opinião do tipo exposta seja divulgada sem uma contestação de nível.

Percebe-se que em sua tentativa de buscar argumentos contra a política de Israel em relação aos palestinos, o escritor foi infeliz ao atacar todos os judeus do mundo e não apenas a política israelense. Mas, pelo que li em seu revide recentemente publicado, ele fez isso com inocência. Talvez não soubesse que sua mensagem estava sendo anti-semita, apesar do texto mostrar isso claramente. Sua falha foi a generalização, unida à ausência de conhecimento sobre a cultura judaica, além da apresentação de uma estranha e incoerente confusão de argumentos. No lugar de procurar força na história dos conflitos israelense-palestinos, o autor, talvez por descuido, valeu-se de histórias de igreja. Obviamente, a narração bíblica sobre Jesus e sua relação com os outros judeus não possui ligação com o atual problema palestino.

É direito de todos a livre expressão. Não há dúvidas. Tanto que em nenhuma frase de meu artigo anterior afirmei que é injusto opinar contra a política de Ariel Sharon. Aliás, em relação a essa política considerada agressiva, até eu chego a duvidar de sua eficiência. O problema é usar argumentos retirados das escrituras cristãs para tentar apoiar uma atual causa palestina. Isso é claramente incoerente e retira a verossimilhança de qualquer idéia.

Concordo que é um fato histórico irrefutável o caso das perseguições sofridas pelos judeus através de opressões promovidas por outros povos, ao longo dos séculos. Mas insistir em afirmar que esse ou outros tipos de episódios são provocados pela “Divina Providência” é um ato muito simplista e ultrapassado. Algumas pessoas, no lugar de buscarem as verdades científicas e históricas por trás de um fato, acomodam-se em dizer que tal evento acontece ou aconteceu simplesmente porque Deus quis ou quer. Esse tipo de pensamento também faz macular a credibilidade de um indivíduo ou grupo. Sendo assim, é necessária uma maior atenção para evitar esse tipo de coisa. É um cuidado que deve ser tomado tanto pelo produtor quanto pelo receptor de determinada mensagem. Principalmente aquela que será lida, possivelmente, por centenas ou milhares de pessoas.

Uma possível crítica relacionada à crença judaica no futuro Messias não deveria ser mencionada como argumento para apoiar palestinos ou qualquer outro povo. Além de não existir relação de uma coisa com a outra, isso apenas produz mensagens com críticas ao povo e cultura judaica, mas inúteis para defender a causa palestina. Esses descuidos levam a um texto de efeito diferente daquele intencionado pelo autor. Acho que isso aconteceu com Mesquita, já que ele esclareceu, posteriormente, não atacar israelitas.

Para evitar futuros equívocos, é necessário um estudo maior do caso por parte de possíveis formadores de opinião quando se desejar sustentar um ou outro lado através de julgamentos. Às vezes não possuímos muito conhecimento sobre um assunto e acabamos embaralhando argumentos e tópicos desconexos.

Por fim, não é necessário temor ao saber que é descendente de judeus. Tratou-se apenas de uma interessante observação. O importante é o que se pensa e se faz agora. Para encerrar meu artigo, deixo claro meu respeito às opiniões dos outros, mas quando essas mensagens passam algo que a sociedade inteligente rejeita, como a falta de respeito a uma religião ou cultura, sabemos que é necessário fazer algo para que isso seja remediado ou, quando possível, prevenido. Certamente não responderei a possíveis dúvidas sobre esse assunto, no qual prefiro não me estender. Esses problemas são resolvidos melhor com pesquisa e bons livros.


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