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sábado, abril 21, 2018

Ciência e desespero, o espírito do tempo

Caso seus sonhos e expectativas tenham descido pelo esgoto, isso já seria muito ruim, mas não há nada que piore seu humor do que um clima geral de pessimismo e desespero provocado por uma cosmovisão de mundo catastrófica. Não é à toa que hoje muitos estejam deprimidos, neuróticos e desesperados. Deprimidos por não haver esperança, neuróticos para encontrar a felicidade, desesperados em busca do prazer, antes da morte de seu corpo e sua alma.

Nos últimos anos, o que vemos por aí é uma exaltação do mundo científico, no qual a existência de Deus é minimizada, questionada e vista como um delírio da humanidade (como diria Richard Dawkins). Todos seríamos filhos do mero acaso quântico, nascidos sem qualquer propósito, num ponto azul e pálido no meio de um universo infinito, hostil e sem vida; estamos à mercê de um asteróide que pode nos extinguir a qualquer momento; somos apenas o vice-treco do sub-troço, como diria o filósofo Mário Cortella. Esqueça que o ser humano foi criado à semelhança de Deus. Você não é ninguém; quase nada.



Nossa consciência e nossa alma não passam de um amontoado de reações químicas no órgão cerebral, desenvolvido ao acaso durante nossa jornada evolutiva de milhões de anos na Terra. Não passamos de animais, um que teve um pouco mais de azar por ter alcançado um nível de consciência alto o bastante para ver o quanto estamos condenados.

Por fim, muito provavelmente, dentro de três ou quatro séculos, desapareceremos da Terra, aquecida de forma insuportável pelas temperaturas altíssimas do irrefreável aquecimento global provocado pela ação humana.

O mundo não tem sentido, mas não me culpe. Estou apenas repetindo o que a maioria do mundo científico divulga nas mídias, com a ajuda da indústria cinematográfica e de entretenimento (sitcoms, desenhos animados e video games); assim como nos telejornais e sites diversos.

Em meio a essas crenças da atualidade não resta muito espaço para a esperança. Alguns tentam encaixar Deus em meio a essa cosmovisão, afirmando que as recentes descobertas científicas apenas confirmariam a glória divina, pois a existência improvável de uma criatura como como o ser humano, num universo infinito e regido pelo caos, sugerem a existência de uma inteligência criadora. De fato, essa é uma posição confortável e até equilibrada, mas que esquece uma coisa: muitas das descobertas, modelos, teorias e hipóteses que permeiam o mundo científico podem estar equivocados. Obviamente, isso seria resolvido apenas mantendo as descobertas científicas num segundo ou terceiro plano de credibilidade, sem elevá-las ao status de verdades, mas não é isso o que ocorre.

É engraçado que justamente entre os cientistas, os quais deveriam saber que a ciência não produz dogmas, muitos se apeguem a modelos e crenças não comprovados. Por exemplo, muitos hoje têm fé na teoria do Big Bang, embora ela seja apenas uma teoria que, a qualquer instante, pode ser refutada. Acredito que mesmo quando alguém consegue conciliar teorias científicas aterradoras com uma cosmovisão religiosa, esse alguém está imerso em dúvidas e, invariavelmente — especialmente quando a fé não é suficiente — pode cair em pensamentos de desespero e horror.

Esse espírito desolador da atualidade pode ser visto na literatura. Por exemplo, boa parte dos escritores de terror mais influentes (Poe, Shelley e Lovecraft) surgiu numa época em que os antigos paradigmas religiosos e místicos começaram a ser corroídos pelo avanço de descobertas no mundo científico. Por exemplo, nas obras de de H. P. Lovecraft (1890-1937), seus personagens enlouquecem ao descobrirem a existência de seres alienígenas tão poderosos que consideram a humanidade da mesma forma como consideramos uma formiga. A humanidade não será dominada como parte de um plano dos marcianos, mas sim por mero acaso, talvez até sem que nossos aniquiladores o percebam.

Lovecraft era ateu e, ao adotar as teorias de Darwin e Einstein também como base de alguns de seus contos, enxerga um universo sem sentido capaz de causar horror e loucura diante de um mero vislumbre além da ilusão confortável de previsibilidade na qual a maioria dos humanos repousa.

Segundo o consenso científico, a verdade é essa e não podemos questionar. "O universo não tem obrigação de fazer sentido para você", como disse o astrofísico popstar Neil deGrasse Tyson. Basta a você aceitar.

O esquecimento do Tyson a respeito da verdadeira natureza da Ciência (a qual não admite verdades absolutas) é propo$ital. Sim, escrito com um cifrão. Boa parte da mensagem desesperadora que grande parte do mundo científico grita a todo instante serve principalmente para manter cargos, bolsas de pesquisa, equipamentos e prédios de alta tecnologia, como nos lembra o jornalista Tom Bethel. A teoria da relatividade, o heliocentrismo e o darwinismo dão dinheiro pra muita gente.

A moderna relação entre a negação de Deus e o mundo acadêmico criou uma conexão direta e esdrúxula entre ateísmo e esclarecimento intelectual, quando na verdade sabemos que crer peremptoriamente na veracidade de modelos científicos é tão dogmático quanto crer em verdades religiosas. No entanto, os religiosos são mais sensatos no sentido de serem dogmáticos apenas em sua área de atuação: a fé. Alguns acadêmicos são dogmáticos onde isso não cabe: nas universidades.

Diante disso, percebemos que muita gente está lucrando em cima do desespero que aterroriza o mundo, criando ilusões e incertezas na mente dos indivíduos, levando boa parte da sociedade a alimentar medos de coisas que podem ser tão absurdas quanto o bicho papão.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Dignidade Esquecida

"Se chegar nesse ponto, quero que me você mate. É uma ordem. Não serei executado por propaganda para meu filho e o povo americano me ver na porra do YouTube pelo resto de suas vidas.", disse Benjamin Asher, presidente dos Estados Unidos para o agente Mike Banning, no filme London Has Fallen (Invasão a Londres, 2016). Assisti isso no dia anterior ao assassinato - na vida real - do embaixador russo Andrey Karlov, diante das câmeras, numa galeria de arte. E a vida imitou a arte. A morte do embaixador está no YouTube para seu filho e esposa verem para sempre. No filme, a situação era menos bizarra, pois não foi a imprensa ocidental que publicou o vídeo na internet, mas sim os próprios terroristas (que no final não conseguiram fazer isso).

A prática comum de virar notícia como uma forma de ganhar espaço na mídia - como fazem empresas e políticos por meio de seus assessores de imprensa - não pode ser concedida a grupos criminosos. Uma coisa é Donald Trump virar manchete ou ser entrevistado por certas declarações polêmicas (as quais ele sabe que as pessoas gostam de ouvir) - como ele mesmo relatou em seu livro América Debilitada (2016). Outra coisa é sequestrar e/ou assassinar para divulgar uma gangue de criminosos e suas intenções políticas, como fizeram aqui no Brasil membros do "crime organizado"[1] e como fez o assassino do embaixador.

Ao saber que o terror islâmico usa a mídia internacional - buscando agir em grandes cidades com alta densidade de jornalistas - percebemos um dilema entre o direito à informação do público e a ética profissional da imprensa. Como um jornalista deveria lidar com um atentado que ele sabe que foi perpetrado com o objetivo maior de ser divulgado na imprensa. O que fazer ao saber que pessoas foram assassinadas apenas para que o fato fosse publicado? E o que pensar sobre a imagem das vítimas, como foi o caso do Andrey Karlov? Acredito que esta última questão seja a última coisa que muitos profissionais da mídia preocupam-se, e é justamente nesse ponto em que falhamos como civilização.

A prática ética de proteger a imagem das pessoas em momentos de fragilidade equipara-se - em meu entendimento - ao direito à privacidade. É pressuposto que nenhum indivíduo deseja exibir-se publicamente sendo espancado, sendo assassinado ou tendo seu cadáver exibido de modo sensacionalista. A curiosidade coletiva dos telespectadores - assim como as intenções de lucro da imprensa - é um sentimento inferior demais se comparado com a preservação da honra e da imagem individual, e ferir esse princípio ético é uma grande falta de respeito à vítima e sua família e às nossas - pressupostas - intenções de crescer ou de pelo menos não decair ainda mais como uma sociedade digna.

Proteger a imagem das pessoas não fere o direito à informação, que pode ser fornecida sem a necessidade de vídeos de violência e morte, os quais - esses sim - são tradicionalmente passíveis de controle pela mídia, como podemos ver no código de ética brasileiro de radiodifusão, certamente com equivalentes em diversos países democráticos.

"Um terrorista matou o embaixador russo Andrey Karlov durante um discurso numa galeria de arte" é o suficiente para ser noticiado. Acredito que informar as motivações do crime - desde que seja de forma superficial - é importante para a informação, mas não é interessante publicar o nome de um eventual grupo terrorista ao qual ele estaria ligado ou divulgar nomes dos líderes do grupo. Alguns colegas poderiam afirmar que eu estaria omitindo, mas na verdade eu estou apenas recusando-me a fazer propaganda gratuita do crime. Quem precisam saber o nome usado por um grupo criminoso são as autoridades investigativas. Os consumidores de notícia não; especialmente quando é justamente essa a motivação do crime: tornar-se famoso.

Os responsáveis pela imprensa tradicional - teoricamente - já conhecem bem seus códigos de ética e a legislação que lhe cabe, sendo necessário a eles apenas um bom exercício de consciência diante dessa realidade; mas, e quanto aos criadores de conteúdo para internet? Penso que todo blogueiro (especialmente aqueles com muita audiência) deveria ter noções básicas de ética e informação. Os denominados youtubers provavelmente preocupam-se mais em ganhar mais visualizações com seus trejeitos e atuações exageradas do que em passar uma informação relevante e útil. As pessoas gostam mesmo é de bobagens.

Por isso, não sou ingênuo ao ponto de acreditar que no Brasil - um país de educação e moral em declínio [2] - algum jornalista ou blogueiro vá se interessar em adotar a ética como um guia de suas atividades. Graças à internet e ao caráter moral de seus usuários, centenas de vídeos de mortes, ameaças, assaltos, atropelamentos estão disponíveis na rede. A barbárie é digital. Você vive o pior do mundo sem precisar sair de casa. Acredito que os efeitos psicológicos na população sejam devastadores.

Uma solução?

Seria interessante - ou urgente, em nosso caso - um tipo de selo de qualidade, dado periodicamente a jornais, revistas, websites e canais (virtuais ou não) que atestariam o compromisso ético de seus responsáveis. Não poderíamos classificar isso como censura, pois ninguém está bloqueando conteúdos previamente, mas sim os qualificando, para o bem dos consumidores. Isso seria muito útil para muita gente, especialmente para os pais preocupados, já que cada vez mais as crianças e adolescentes navegam por caminhos obscuros e bastante impróprios da internet. Não precisaríamos criar uma nova lei ou deixar isso nas mãos do governo. Ele não precisa ser o único responsável pela civilidade da nação. Já possuímos leis suficientes. Elas apenas precisam funcionar.

Um grupo independente, formado por filósofos, sacerdotes, juristas e comunicadores poderia fazer isso todo ano, publicando uma lista com todos os veículos e canais relevantes que receberam o selo de qualidade. Isso não impediria ninguém de acessar as bobagens que alguns youtubers falam ou as barbaridades que alguns veículos da grande imprensa e da internet publicam, mas seria um auxílio importante, um guia, uma luz para que os consumidores de informação brasileiros possam orientar-se em meio a um mar de trevas cada dia mais sujo.

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[1] Em 2006, um grupo criminoso sequestrou um jornalista da rede Globo com o objetivo de obrigar a emissora a divulgar um vídeo com demandas a respeito da situação dos presídios de São Paulo.
[2] Em outros artigos já denunciei como a popularização de smartphones fez com que o conteúdo disponível na internet decaísse moralmente, afetando a população brasileira inteira, e aumentando o tamanho de indivíduos pertencentes a o que chamo de ralé moral.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Baixaria agora é moda.

Não é de hoje que percebo uma redução nos valores morais em nosso país, um aumento generalizado na pobreza de espírito e na valorização da baixaria instintiva de cada um de nós. Alguns podem dizer que isso talvez seja apenas uma impressão minha, e que o brasileiro sempre foi assim e que a coisa estaria mais visível apenas por causa da popularização da internet. Bom, discordo parcialmente.

A popularização da internet não é apenas um fenômeno que expõe de forma generalizada determinados comportamentos considerados imorais (consumo de drogas de todo tipo, desvalorização da mulher, práticas sexuais inusitadas, comentários agressivos desnecessários etc). Essa popularização possuiria também um papel crucial num processo de destruição de normas relacionadas à moral dos indivíduos em nossa sociedade, num efeito semelhante ao processo de informalização, no qual as pessoas passaram a agir de forma mais informal, como relata Steve Pinker1.

Enquanto o processo civilizador foi um fluxo de normas e maneiras das classes altas para as mais baixas (o que reduziu drasticamente os homicídios na Europa desde a Idade Média), o processo de informalização - ocorrido a partir do fortalecimento da democracia nos países ocidentais - foi o contrário, afetando a forma como as pessoas se vestiam, a linguagem e a conduta, de modo que, hoje, vestir-se com sapatos e calça social é motivo para o riso em vários grupos; e o respeito ao próximo reduziu-se de uma forma que vai muito além de simplesmente chamar os outros pelo primeiro nome no lugar de "senhor" ou "senhora".

Um exemplo dessa coisa é o caso de Ruth Lemos. Em 2006, a nutricionista virou piada na internet após protagonizar uma entrevista na qual ela falava, com uma hilária dificuldade, a respeito dos valores nutricionais de um sanduíche. Naqueles tempos, um conhecido me repreendeu por eu estar rindo da pobre mulher. Afinal, ela deve ser uma pessoa honesta e deve ter uma família; e ser ridicularizada publicamente certamente pode possuir um efeito prejudicial em vários aspectos, começando pelo psicológico. Nada mais sensato! De fato, divertir-se com esse tipo de coisa e ainda por cima espalhar por aí na intenção de fazer os amigos também rirem da mulher não é algo a se ter orgulho. Assemelha-se muito com o comportamento de crianças praticando bullying, não é mesmo?

De forma contraditória, hoje em dia, a mesma pessoa faz pior do que eu, divulgando videos semelhantes sem qualquer tipo de cerimônia. O que aconteceu? É claro que não podemos pegar o exemplo de uma pessoa e dizer que todo mundo mudou, mas há indícios de que as pessoas em geral estão realmente mudando seu comportamento e deixando seus princípios para lá, adotando apenas o que a "maioria" dita2.

Outro exemplo, mais recente, é o caso "Leo e Fabíola". Falo dele aqui não para debater quem tem menos razão nessa história (como muita gente faz por aí), mas sim para criticar o próprio fato de todos nós termos perdido um bom tempo nos divertindo e comentando a tragédia alheia. Já faz um bom tempo que perdemos a noção de caráter. O pior mesmo é que, se você não souber do caso, será chamado de desatenado, sendo prontamente pressionado a participar da falta de caráter dos outros. Gostar de baixaria virou moda.

Isso sem falar em indícios mais óbvios, como o aumento no consumo de drogas (especialmente cocaína e derivados), o aumento da criminalidade e da violência; isso sem falar nos inúmeros vídeos de cunho privado, cada vez mais divulgados na internet. Menininhas de 14 anos que dançam funk carioca até o chão e com pouca roupa, no Youtube, certamente estão longe de se respeitarem. Aliás, qualquer mulher ou homem que se rebaixe ao nível de se enxergar apenas como um corpo está longe de se valorizar, mas o problema maior não é eles fazerem isso e divulgarem na internet, mas sim o fato de coisas desse tipo estarem sendo imitadas, consideradas algo exemplar.

Como já comentei, esse fenômeno de empobrecimento moral pode ser explicado por um processo no qual as normas de comportamento estão indo de baixo para cima, onde as pessoas que possuem comportamentos e atitudes mais nobres começam a adotar comportamentos vindos da "ralé moral", que não seria necessariamente a ralé econômica, os pobres, pois é sabido que tem muito rico sem vergonha por aí.

A popularização da internet e dos smartphones faz com que normas e comportamentos de todo o tipo se espalhem por toda a população, com pouco ou nenhum filtro. Enquanto nas mídias tradicionais (rádio e TV) essa destruição de normas morais tenha sido sempre presente (em nome do lucro e da audiência), ela possui um mínimo de um filtro que seja (nem que seja pelos códigos deontológicos), mas não podemos esquecer de quadros televisivos estilo Banheira do Gugu ou Pânico na TV e de músicas com letras de cunho sexual que enaltecem comportamentos de farra descompromissada: "beber, cair e raparigar", "novinhas descem até o chão e eu tô ostentando", e coisas do tipo, que tocam a todo instante nas rádios mais populares do Brasil inteiro.

O que podemos aprender com tudo isso é que há uma pequena possibilidade de isso ser revertido, pois os mesmos instrumentos que são usados para empobrecer nossa população tão rapidamente com normas da baixaria e da "vida lôka" podem ser direcionados para enriquecê-la com comportamentos e valores nobres. Sabemos que as chances são pequenas, pois a tendência é que tudo piore mesmo, garantindo que o futuro Brasil seja um péssimo lugar para se viver, pelo menos para gente com um mínimo de decência. Calma! Não seria motivo para se desesperar, mas sim para começar a fazer o contrário.

As pessoas deveriam ter orgulho de suas convicções e começar, de alguma forma, a usar a internet para espalhar normas e valores nobres e tradicionais de respeito a si mesmo e ao próximo, que tantas pessoas ainda possuem, mas tem vergonha de demonstrar. Um dos obstáculos para isso é o fato de que as religiões, uma das maiores difusoras de normas e comportamentos respeitáveis, estão ficando fora de moda. Ridicularizadas desde meados da década de 1960, via mídia de massa, em mensagens criadas pela nova esquerda, as religiões judaico-cristãs - a base moral da nossa civilização - nunca foram tão menosprezadas, como podemos ver no sucesso de programas humorísticos do tipo Porta dos Fundos, que fazem piadas pesadas contra o cristianismo, mas não falam nada contra as "minorias", o grupo mais sagrado da atualidade. Criticar o comportamento homossexual usando piadinhas pode custar caro, um processo judicial ou, no mínimo, uma chuva de xingamentos virtuais. Agora fazer piada do papa ou de Deus parece não ter problema algum.

Portanto, quando estiver gargalhando, divertindo-se com a traição alheia, compartilhando videos íntimos dos outros, ou coisas do tipo, mostrando para seus amigos e tudo o mais, saiba que você está apenas juntando-se ao grupo cada vez maior da ralé moral brasileira, espalhando ainda mais as normas que cada vez mais prejudicam nosso país.

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[1] Veja mais na obra "Os anjos bons de nossa natureza", na qual Steve Pinker descreve as razões pelas quais a violência diminuiu no mundo inteiro, por meio de certos instintos humanos.

[2] Coloquei a palavra maioria entre aspas, pois pode ser uma aparência de maioria, onde os indivíduos apenas acreditaram que aquele comportamento é seguido por muitas pessoas e que fazer o mesmo lhe faria receber recompensas sociais.

[3] Veja mais na matéria "Popularização dos smartphones incentiva novos empreendimentos", publicada em 01/12/2014, no site da Folha de S. Paulo.


quarta-feira, julho 22, 2015

Fotos coloridas e conflito social

A modinha já passou. O casamento gay nos EUA já é uma realidade e as pessoas já se cansaram de discutir isso no Facebook. Mesmo assim, este texto é relevante, já que aborda um comportamento que, embora comum, pode tornar-se perigoso para uma sociedade.

Inicialmente, eu estava pensando em explicar a adesão maciça ao ativismo gay nas redes sociais, os tais “coloridos" do Facebook, por meio de um simples modismo no qual boa parte dos participantes teria entrado mais por conformismo ou para parecer uma pessoa esclarecida do que realmente para concordar com uma conquista dos gay rights. No entanto, seria uma explicação muito feijão com arroz dentro do comportamento humano, embora não deixe de ser uma explicação digna de atenção.

Afinal, o conformismo é um dos fatores explicativos mais comuns de todos os tipos de comportamentos sociais humanos. Estamos instintivamente predispostos a concordar com alguém e a participar de torcidas. Aqueles que se vangloriam por aderir à moda dos coloridos racionalizam isso em nome de um avanço sócio-politico ou em nome da liberdade, diversidade e do amor. Aqueles que são contra dizem que é melhor se preocupar com a fome na África. Tanto um quanto outro pensamento são apenas racionalizações, discursos usados para justificar um comportamento que na verdade é mais instintivo do que resultado de uma ponderação racional e imparcial.

Tudo muito normal dentro do comportamento humano, mas isso não significa que algumas dessas coisas sejam imunes à críticas, pois conformismos e anti-conformismos extremistas são perigosos; e tendem a produzir atitudes perigosas que podem ameaçar a nossa civilidade. 

Logo, minha tese aqui é a de que alguns movimentos sociais e ideologias políticas estão adotando uma norma de polarização de opiniões com a intenção de gerar conflitos até então inexistentes em nossa sociedade.

Colorir a foto não é o problema. O problema é querer provocar os outros, acusando as pessoas de serem criminosas homofóbicas e de cultivarem o ódio. No geral, as pessoas não sentem ódio contra homossexuais, embora saibamos que existe gente que sente. No entanto, também sabemos que é uma minoria bem pequena e que ela não justifica tamanha generalização.

Normalmente, a maioria das pessoas apenas ignora, deixando essa história de homossexuais pra lá, pois não é um assunto que necessite de um debate acirrado. Há coisas mais importantes para se preocupar. A maioria sabe que sempre existiram homossexuais no mundo e certamente não concorda com esse tipo de prática sexual, embora não pretenda proibir os gays de fazerem o que quiser com seus corpos e com quem quer que seja, desde que haja consentimento entre as partes, claro. Dentro de uma sociedade onde existe a liberdade individual, pensar dessa forma é comum. Cada um faz o que quer, desde que não interfira no direito do outro. Acredito que esse seja o pensamento da maioria.

Porém, algumas pessoas do ativismo gay pretendem acusar toda a sociedade de ser homofóbica, dizendo que toda ela está repleta de normas heteronormativas e que isso precisaria ser alterado. 

Quando o ativismo busca o respeito para com homossexuais e o fim do preconceito, considero essas ações louváveis e positivas, já que a orientação sexual não define caráter ou valor do indivíduo como ser humano. A intolerância e a violência deve ser combatida.

Porém, quando o ativismo propõe dispositivos jurídicos que colocam gays acima dos outros cidadãos (cotas para concursos, por exemplo), quando o ativismo procura achincalhar os valores e as normas da maioria, como podemos ver em alguns protestos e paradas gay (como os santos católicos em posições eróticas gays), há um problema nisso que vai além da falta de respeito: há uma intenção de enfrentamento que pode gerar - e gera mesmo - correntes de opinião contrárias aos homossexuais em geral, as quais anteriormente inexistiam. Seria esse fenômeno algo proposital? Tudo indica que sim, e planejado pelos cabeças do movimento. Qual a razão de incitar o conflito e o ódio?

Quando isso ocorre, a maioria das pessoas acaba confundido tudo. Por um lado, se um homossexual não colorir a foto do Facebook, outras pessoas - gays ou não - vão questioná-lo de forma agressiva, o pressionando a aderir à modinha, como de fato aconteceu com alguns gays que não concordam com as intenções do ativismo. 

Por outro lado, indivíduos que anteriormente não se importariam com esse assunto, começam a lançar ataques opinativos contra homossexuais em geral. Isso ocorre pois as pessoas não conseguem separar as coisas. Uma coisa é o homossexual. Outra coisa é o ativismo político gay, o mesmo que celebrou a decisão da Suprema Corte americana, o mesmo que deseja implantar o casamento gay em todos os países, o mesmo que deseja implantar educação sexual gay para crianças a partir de seis anos nas escolas aqui no Brasil.

O ativismo está roubando a voz dos gays que não concordam com o ativismo. 

Cada vez mais a voz de homossexuais que discordam da agenda política, incluindo-se aí o casamento gay, vem sendo calada e, pior, substituída. Não raro, muitos gays sentem-se atraídos pelo apelo dessa ideologia e, no lugar de ter uma opinião própria sobre assuntos relacionados à sua sexualidade ou à sua visão de sociedade, apenas adotam as premissas do ativismo político. Isso tudo representa um conformismo com tendência à polarização, o qual deve ser combatido.

Criticar o ativismo gay, uma ideologia, não é criticar a homossexualidade ou ser homofóbico, como muitos tentam sugerir. É muito comum ver alguns indivíduos fazendo acusações levianas desse tipo. Qualquer crítica ao ativismo gay é uma ofensa e motivo para processo judicial, sendo isso uma ameaça à liberdade de expressão. De fato, alguns dos maiores combatentes, contrários à essa ideologia, já foram processados por expressar suas opiniões. Alguns, como o pastor Silas Malafaia, foram absolvidos. Outros, como o ex-candidato à presidência da república, Levy Fidélix, foram condenados e estão recorrendo da decisão.

Quando uma sociedade decide resolver tudo com base em processos  judiciais, é um indício patológico de que está faltando confiança entre seus indivíduos; e parece ser exatamente essa a intenção de alguns movimentos sociais. Essa estratégia vem claramente de uma visão neomarxista de mundo, onde todas as relações dentro de uma sociedade capitalista implicam o conflito e a desconfiança. Está na hora de parar de cair nessa armadilha ideológica e de ficar nos agredindo por causa de polêmicas artificiais produzidas por movimentos ou ideologias. 


Não é com base no medo e na agressão que os gays, ou os negros ou qualquer minoria coitadinha inventada receberá mais respeito e aceitação da maioria. É necessário gerar um sentimento de união e confiança entre as pessoas. Não o contrário.

sábado, fevereiro 01, 2014

Aborto, drogas e a lógica do desespero

Ultimamente, o lobby para a descriminalização do aborto e para a legalização da venda de drogas – especialmente a maconha – anda ocupando boa parte da agenda política de certos movimentos sociais e do debate público em geral. Apesar de serem duas demandas distintas, ambas se utilizam de discursos que, independente da validade de seus argumentos, obedecem a uma lógica do pessimismo e do desespero, ainda que possamos questionar até que ponto os próprios defensores desse lobby acreditam em suas próprias palavras ou se é apenas uma racionalização (encenação) para ludibriar os outros e validar suas intenções “libertárias”.

Em seus discursos, os lobistas demonstram sua total descrença nos métodos tradicionais de lidar com tais temas, alegando que esses métodos não são eficazes ou apresentam problemas. “Já que as mulheres estão realizando abortos clandestinos, vamos ajuda-las e descriminalizar a morte de seus filhos não nascidos em clínicas autorizadas”, diz uns. “Já que todo mundo está usando drogas ilícitas, vamos legalizar logo essas substâncias, vendendo elas em farmácias. A repressão ao narcotráfico não funcionou. É uma guerra perdida. A legalização é a solução para reduzir o crime”, dizem outros.

Estamos numa época em que se uma coisa tem um defeito, devemos descarta-la no lugar de consertá-la. Fazemos isso, seja com objetos seja com pessoas. Para alguns usarem esse mesmo pensamento em relação às leis, aos valores e à moral tradicional, é só um passo.

No entanto, é interessante como essa insistente descrença nas leis vigentes não serve para alimentar um mínimo de ceticismo a respeito de seus próprios projetos mirabolantes de descriminalização. Mas o pior de tudo é que, mesmo optando pelo descarte de uma ou outra lei, no lugar de se criar soluções alternativas e originais, se limitam a seguir a modinha da atualidade: liberar geral. É a orientação anti-proibicionista como solução para tudo.

No caso do aborto, a argumentação realmente parece ter uma preocupação legitima. As mulheres que desejarem abortar seus filhos poderão fazê-lo em hospitais e clínicas autorizadas no lugar de submeter-se a clínicas clandestinas onde as chances de algo dar errado são bem maiores. Nesse sentido, legalizar o aborto seria benéfico para essas mulheres. No entanto, essa solução – obviamente imoral – não parece ser a melhor para resolver o fato triste de que muitas mulheres estão abortando. Muita gente esquece (ou tentam nos fazer esquecer) que o problema não é a inexistência de clínicas legais especializadas em aborto, mas sim o próprio fato de essas mulheres estarem buscando o aborto fora dos casos já aceitos pela lei brasileira.

Logo, o que os ativistas favoráveis ao aborto desejam é a descriminalização plena do aborto, que poderá ser feito mediante qualquer motivo banal que vier à cabeça da mãe, coisa que nossa presidenta já era favorável bem antes de ser presidenta[1], em nome da liberdade de escolha da mulher sobre seu próprio corpo. Ocorre que esses ativistas não lembram que as mulheres já possuem essa mesma liberdade de escolha antes de ter as relações sexuais irresponsáveis que provocaram a gravidez indesejada. Afinal, não é preciso ser um gênio para saber que é bem mais fácil e sensato dizer não agora (ou usar métodos contraceptivos) do que realizar um aborto posteriormente.

A liberdade sexual como direito parece estar acima dos deveres e responsabilidades que as pessoas deveriam ter sobre o próprio corpo. A luta agora é pela institucionalização da imoralidade, pela liberdade individual irresponsável e sem culpa. Além disso, outros países mais desenvolvidos, como o Canadá, já descriminalizaram o aborto e isso deve ser bom, como acreditam alguns, como se o desenvolvimento do Canadá decorresse dessas políticas ou como se os valores alheios se justificassem pela riqueza de quem os possui. É bom ter cuidado. Sempre considerei a cautela uma virtude.

Na mídia, fazer sexo se tornou uma façanha a se orgulhar ou uma espécie de libertação em torno da qual tudo gira. Não fazer sexo se transformou em motivo para a tristeza. Em meados da década de 90, a porção mais influente da mídia brasileira começou a tratar a questão da sexualidade dos jovens e adolescentes no intuito de desmistificar (leia-se ridicularizar) a virgindade e destruir normas relacionadas à castidade e à valorização do corpo feminino, que ainda eram fortes em vários setores da sociedade brasileira, naturalmente conservadora.

Lembro-me que, na época, a telenovela Malhação seguia essa mesma linha e não tinha vergonha de explorar a imagem dos corpos dos jovens tanto nas aberturas como durante o enredo da novela. A apresentadora e cantora Xuxa também deu sua contribuição. Uma de suas músicas dizia: “Libera o corpo pra poder sentir. Os desejos, as vontades, o que pedir (libera). Canta mais alto, mostra tua voz. O que importa o que os outros vão pensar de nós. Libera geral, libera geral, libera geral (então libera)”[2]. Os adolescentes eram o alvo. Por algum motivo misterioso, a televisão e algumas revistas direcionadas para esse público diziam que eles podiam fazer sexo antes do casamento, como se isso fosse de alguma forma essencial para o crescimento deles. Liberar geral é mais exemplar do que estudar matemática.

Xuxa cantando "Libera Geral"

O fato é que não duvido que essa vanglorização do sexo sem compromisso na mídia, entre adolescentes e adultos, tenha contribuído para o aumento de quase 60% no número de mães solteiras no Brasil em 10 anos, conforme o censo do IBGE 2010. No fim das contas quem paga o pato por ideologias liberais no campo sexual sempre é a mulher, até quando ela acha que vai se dar bem.

Será que os efeitos da revolução/liberação sexual nos EUA nas décadas de 1960 e 1970 só começaram a chegar por aqui na virada do século? É provável. O fato é que a redução da apologia ao sexo na mídia já seria uma grande contribuição na redução do número de gravidezes indesejadas, as quais são a verdadeira causa dos abortos induzidos e, consequentemente, da busca por clínicas clandestinas. É claro que a mídia não possui total responsabilização, mas as pessoas de fácil manipulação, que engolem tudo o que ela dita, sim. O retorno de normas relacionadas à castidade e à valorização da mulher é uma solução moralmente mais viável e eficaz (não a única), mas nunca veremos a grande mídia fazendo uma campanha nesse sentido; muito pelo contrário, como podemos ver no sucesso de músicas e danças que pregam a promiscuidade, entre outros anti-valores. O autocontrole que se dane. O negócio é ser “vida loka”.

Já a respeito da legalização das drogas, a crença na cartilha da liberação geral encontra problemas. Por exemplo, enquanto uma miríade de empolgados, viciados e/ou intelectuais aplaudia a legalização da maconha no Uruguai, o próprio presidente Mujica, tomando chimarrão, admitiu que não sabia ao certo o que estava fazendo. “É um experimento sociopolítico frente a um problema tão grave como é o narcotráfico.”, disse[3]. O certo é que uma boa parte dos uruguaios não está gostando de ser cobaia desse experimento. Afinal, os efeitos nocivos de qualquer droga para uma sociedade são inquestionáveis[4]. Um dia desses, eu tive um debate pela Internet com um ativista que defendia a liberação da maconha se utilizando de uma analogia com as frituras: “Mesmo se a maconha for prejudicial à saúde, o governo não deveria impedir as pessoas de usá-la. Afinal, fritura faz mal e nem por isso o governo proíbe a pessoas de comer fritura”. Perguntei a ele se algum dia ele tinha ouvido falar de alguém que roubou os objetos de valor da casa dos pais ou cometeu crimes para aplacar o vício em fritura. Para não falar mais absurdos, ele não respondeu.

Diferentemente do que alegam os defensores da supremacia da liberdade individual, nunca o prejudicado é apenas o usuário. Bandidos se drogam no intuito de cometer assaltos e homicídios; pessoas morrem em decorrência de motoristas embriagados; famílias veem seus filhos se degenerando em todos os sentidos, muitos dos quais passando a cometer crimes apenas para manter o vício. Sobre esse último exemplo, é bastante sabido, ainda que muitas vezes esquecido, o fato de que o consumo de drogas não só alimenta organizações criminosas, como também transforma os usuários nos próprios criminosos, como relata a socióloga Alba Zaluar: “(...) a separação entre traficante e usuário, sombreada pelas leis pouco claras, torna-se tanto mais difícil quanto mais obcecada pela droga a pessoa é. Hoje, é fato aceito que a necessidade de pagar ao traficante leva o usuário a roubar, assaltar e algumas vezes a escalar o seu envolvimento no crime”. Não duvido que ele cometeria os mesmos crimes para pagar a uma eventual farmácia autorizada pelo governo a vender maconha.

Porque existe tanta gente que tem fé numa política de legalização que pode incentivar o agravamento da situação? Ou eles têm certeza de que essa solução é salvadora e vai resolver o problema do narcotráfico? Não acredito nessa certeza, mas acredito que a fé nessa solução pode cegá-los para a possibilidade de consequências desastrosas. Acredito que qualquer tipo de mudança significativa na legislação de um país, feita sem cautela, deveria ser acompanhada pela responsabilização a respeito de eventuais consequências nefastas dessa decisão. Seria uma forma de proteger uma nação de ideias idiotas que nascem da cabeça de eventuais porra-loucas ocupantes de cargos no poder, como é o Mujica.

Uma das formas de combater um câncer é o matando de fome. Sem o dinheiro dos usuários viciados, o narcotráfico morre. É simples. Deveria existir uma penalidade maior para quem usa drogas, pois, além disso, todo usuário é um traficante em potencial. A penalidade deve cair sobre os usuários e ela não deve vim apenas via jurídica. Todo usuário deve ser visto socialmente como um imbecil manipulado pelo narcotráfico, mas não elogiado ou ter sua atitude minimizada em várias mensagens midiáticas de apologia às drogas.

Deveria existir um controle maior em relação aos valores que os jovens estão recebendo, um controle exercido por suas famílias e nas escolas. Nesse sentido, o preconceito que existe a respeito do mundo das drogas deve ser exaltado e quanto mais ele existir na sociedade, especialmente entre os jovens, melhor, pois mais longe eles ficarão desse mundo. Quando todo jovem pensar que ser um “velho careta” é, na verdade, ser adepto do uso de maconha e de outras drogas, saberemos que estará tudo bem.





[1] Dilma Rousseff defendeu o aborto generalizado durante uma sabatina da Folha de S. Paulo em 04/10/2007, um discurso que foi alterado posteriormente em 2010 durante debates poucos dias antes das eleições, provavelmente feito apenas para ficar bem na opinião pública.
[2] A música "Libera Geral" foi lançada em 1997.
[3] Leia a matéria “Os efeitos internacionais do 'experimento' uruguaio com maconha” publicada em 11/12/2013 no site da BBC Brasil.
[4] O argumento que se utiliza de eventuais benefícios medicinais da maconha perde a força diante dos infindáveis malefícios que a mesma droga pode trazer para a saúde, como surtos psicóticos, problemas de memória, problemas de aprendizado, disfunção sexual e alguns tipos de câncer.

sexta-feira, junho 21, 2013

Sete falácias de um movimento

Eis, abaixo, as falácias e as devidas explicações. Vamos ser realistas. Acorda Brasil!

1. O movimento representa a vontade do povo.
Ainda que estivessem todos lutando por uma mesma causa – o que não é verdade - se vivemos numa democracia, povo só pode ser considerado povo se for maioria. Analisando a quantidade de pessoas nas ruas em comparação com o número total de brasileiros, a forma como o movimento está sendo feito só é defendida por uma pequena parcela da população brasileira. Ou você acha que a maioria dos brasileiros é contra a Copa do Mundo ou a favor da falta de organização nesses protestos? Fora isso, diante de relatos da mídia e de representantes do “movimento”, percebe-se a presença majoritária de estudantes de classe média. A massa pobre e trabalhadora, maior parte de nosso povo, não participa disso.


Crédito: http://veja.abril.com.br/
2. A violência não é provocada por manifestantes.
Essa falácia foi, inclusive, criada pelo jornalismo da televisão aberta, incluindo a Globo, que ultimamente vem repetindo ela exaustivamente, em todas as ocorrências de destruição e desordem. A tentativa é de desqualificar os vândalos como manifestantes. Ainda que seja uma pequena parcela dos manifestantes que destruam lojas, pichem patrimônio público ou queimem carros de emissoras, essa parcela não deixa de ser classificada como manifestante. Além disso, o discurso da mídia entra em contradição quando fala em "pequeno grupo de vândalos" ao mesmo tempo em que se observa 50 ou 100 pessoas envolvidas nos atos de violência. Afinal, 1% de 100 mil, que poderia – pela lógica desses discursos midiáticos – ser considerado um “pequeno grupo”, equivale a mil pessoas. E desde quando mil pessoas é um “pequeno grupo”?

3. O gigante acordou. 
Na verdade, o gigante emburreceu de vez. A maior prova de burrice coletiva foi ontem (20/06), com a ilusão generalizada de que o país vai melhorar por simples revolta emocional e indignação sem uma pauta clara, específica e objetiva. Tenho pena da gente de bem iludida com isso, muitos amigos meus.

4. O movimento vai resolver tudo.
Mera ilusão. Se analisarmos os resultados obtidos, comparados com as infindáveis demandas contraditórias dentro do movimento, chegamos à conclusão de que, até agora, nenhuma delas foi resolvida (o que é de se esperar de um movimento que nem sabe o que quer, de fato). Afinal, como resolver dezenas de problemas genéricos de uma vez só? É o mesmo que choramingar pela existência de coisas ruins no mundo sem se concentrar nas causas dessas coisas ruins. Como averiguar, por exemplo, que acabou a corrupção no Brasil? Exigir o fim da corrupção – só para citar uma das infindáveis demandas genéricas – obviamente, independe de decisões governamentais, principalmente ao se saber que a origem da corrupção está dentro dos próprios costumes brasileiros, como visto em vários estudos sociológicos ou mesmo vivenciando essas coisas em esferas que não tem nada a ver com a política partidária, como, por exemplo, em nossas famílias, em diversas relações comerciais ou mesmo em nossas universidades. A corrupção vem do povo, pois os políticos também vêm do povo e ainda votamos neles. Na verdade, até agora o movimento causou apenas destruição material, caos e vários feridos na grande maioria das manifestações; e um morto em Ribeirão Preto.

5. O movimento é pacífico.
A despeito da ingenuidade da maioria dos manifestantes (que defendem a manifestação pacífica), a partir do momento em que essa mesma maioria valoriza apenas a quantidade de gente na rua, como podemos ver diante do slogan “Vem pra rua!”, se está sendo, no mínimo, irresponsável e conivente com a desordem e a violência. A exclusiva valorização da quantidade em detrimento da objetividade e da qualidade é visível diante de comentários nas redes sociais e mesmo na mídia: “Foi uma festa da democracia!”, “Foi lindo de se ver!”, “Nunca vi tanta gente na rua!” e coisas do tipo. A estratégia de chamar todo mundo para a rua é falha se a intenção for manter a ordem, pois qualquer um com qualquer ideia na cabeça irá participar e manifestar seus ideais, sejam eles agressivos ou não.

6. O movimento independe da mídia.
Mentira. Os principais slogans utilizados são de propagandas midiáticas da empresa automobilística Fiat (Vem pra rua) e do whisky Johnnie Walker (O gigante acordou). Fora isso, os movimentos se intensificaram drasticamente após as emissoras de televisão aberta, inclusive a rede Globo, se posicionarem favoráveis ao movimento, com ampla cobertura dos protestos. O grito “Sem Violência!” também se tornou famoso e, de forma curiosa, é reproduzido na mesma sonoridade e ritmo, imitando imagens divulgadas constantemente pela Internet e pelas emissoras de televisão aberta. E depois ainda dizem que não são manipulados.

7. O movimento é um movimento.
Por fim, isso nem pode ser definido como movimento. O que chamam de movimento é simples turba, reunião de gente na rua por causas desconexas e conflitantes. Numa mesma massa de gente encontramos pessoas favoráveis aos partidos políticos e desfavoráveis aos partidos políticos; favoráveis à perseguição religiosa e contra a perseguição religiosa; favoráveis ao casamento gay e contra o casamento gay; pessoas contra a corrupção que ao mesmo tempo a praticam; gente favorável pela legalização das drogas e gente totalmente contra a legalização de drogas; pessoas contrárias à inflação e que, ao mesmo tempo, desconhecem as causas de uma inflação. Isso não é movimento: é uma turba contraditória e, não raro, ignorante.

sábado, junho 01, 2013

A ditadura das minorias e os efeitos da espiral do silêncio na maioria conservadora

Por Nestor Burlamaqui

Apesar de parecer contraditória a hipótese de que, mesmo numa democracia, os valores defendidos pela maioria conservadora estão sendo progressivamente excluídos por uma minoria liberal, essa realidade pode ser facilmente explicada por um processo que envolve a ação de uma nova classe dominante de intelectuais, juntamente com os processos de produção e reprodução de comunicação de massa, além de um efeito social conhecido como espiral do silêncio.

Na sua obra A Rebelião das Elites, o crítico social Christopher Lasch já havia denunciado, nos Estados Unidos, a existência de uma nova classe de intelectuais no poder, a qual ele denominou de intelligentsia. O autor não esclarece exatamente como essa nova classe subiu ao poder, mas no caso brasileiro podemos situar esse ponto no período conhecido como ditadura militar. Preocupados principalmente com o comunismo armado, os militares brasileiros permitiram que o comunismo teórico, ou marxismo cultural, se proliferasse à vontade nas universidades brasileiras, um fato que explica a atual natureza marxista de alguns cursos, especialmente aqueles da área de humanas. O fato é que hoje existe uma nova elite de intelectuais brasileiros e, como toda elite, ela é minoria. No caso brasileiro, ela também vem criando demônios e suas vítimas, ao mesmo tempo em que se apresenta como defensores dessas vítimas, como paladinos das "minorias excluídas" vítimas de um "sistema opressor", sendo que, contraditoriamente, eles mesmos fazem parte do topo desse sistema.

A lógica da produção de notícias e programas televisivos – e sua consequente divulgação – possui critérios que valorizam o diferente, o chocante, o estranho e o inusitado. Ou seja, no fim das contas, o objetivo é conseguir um nível elevado de audiência para atrair a venda de espaço publicitário, a principal receita das grandes emissoras. Assim, pela própria natureza do material midiático, o qual deve garantir essa audiência, os ideais e comportamentos defendidos com base em obras de ideólogos neomarxistas – os deuses da tal intelligentsia - ganham espaço nos noticiários com facilidade, justamente por irem contra o que pensa a maioria, justamente por tais ideais serem estranhos e chocantes para a maioria e justamente por possuir um forte apelo emocional que evoca a curiosidade, a aversão ou até o medo da maioria conservadora.  Exemplos desses comportamentos e ideais podem ser vistos atualmente na pauta da mídia: ativismo gay, liberação das drogas e o patrulhamento ideológico denominado “politicamente correto”. Todas essas coisas vão contra a corrente da maioria real da população e, por isso, vendem jornais e dão audiência.

Segundo a teoria da espiral do silêncio, quanto mais minoritária a opinião dentro de um universo social, maior será a tendência de que ela não seja manifestada. A princípio, essa teoria não poderia explicar quais seriam as causas para que justamente a maioria permaneça calada diante dos ideais minoritários da intelligentsia. Ocorre que, vendo a ampla divulgação desses ideais na mídia, muitas vezes sendo apoiados por uma ou outra emissora menos imparcial (logo, menos ética), a impressão que a maioria conservadora possui é que esses ideais e comportamentos estão por todos os lados. Ou seja, a mídia, não necessariamente de forma intencional, termina por criar uma ilusão, conferindo à minoria a aparência de maioria, criando uma espécie de “maioria virtual” que existe apenas na mente dos consumidores da mídia de massa, o que inclui todos, tanto os da maioria conservadora – que passam a temer expressar suas próprias opiniões – quanto os da minoria – que acabam sentindo-se mais fortes e confiantes para propagar ideais esquerdistas e comportamentos repulsivos.

Percebe-se, portanto, que é plausível afirmar que existe uma ditadura não oficial das minorias no Brasil. Por meio da mídia, a maioria conservadora é ameaçada por propostas de leis que amordaçam opiniões e põem em risco a liberdade de expressão e, consequentemente, a própria democracia, sendo que, como visto, o amordaçamento já ocorre, ainda que de forma não instituída como lei. Hoje é complicado criticar, por exemplo, o ativismo gay. As próprias pessoas integrantes da maioria, mesmo intimamente concordando com a crítica, alertarão para o risco de se estar cometendo crime de “homofobia”, o mais novo demônio criado pela intelligentsia.  Não se pode criticar usuários de drogas os chamando de “maconheiros”, pois logo se é tachado de preconceituoso. Eles devem ser protegidos de quaisquer críticas, provavelmente para dar legitimidade à legalização de substâncias destruidoras da dignidade humana. Na televisão, o humor deve concentrar-se apenas em piadas de brancos ricos e religiosos, sob o risco de ser processado juridicamente. Podemos fazer piadas do papa, mas é um pecado mortal criticar o comportamento homossexual ou o consumo de drogas. E, assim, o silêncio da maioria aumenta progressivamente e, estranhamente, só os mais corajosos ousam falar aquilo que todo mundo pensa. 

terça-feira, setembro 04, 2012

Lei de talião e pena de morte no Brasil


Considero o princípio da lei de talião o mais justo de todos os princípios legais. Ele representa o equilíbrio. Afinal, não seria isso a justiça? É um princípio simples. E a simplicidade é o último grau de sofisticação. Por exemplo, se alguém mata intencionalmente uma pessoa inocente e por motivo banal, esse alguém deve ser morto.

Podemos complicar um pouco. Durante um hipotético (mas não tão hipotético) assalto, policiais e bandidos trocam tiros. Uma pessoa que passava nas proximidades é atingida e morta. Nossa lei preocupa-se em procurar a autoria do tiro que matou o inocente, quando isso é irrelevante a princípio. O que verdadeiramente importa é a autoria da intencionalidade que assumiu e provocou a morte. Não há dúvidas de que os bandidos saíram de casa assumindo a possibilidade de matar. Não os policiais. Logo, percebemos aí a intencionalidade de usar a força por meio da morte de uma alguém, independente de quem viesse a obstruir suas intenções criminosas. Logo, ainda que juridicamente no Brasil isso seja complicado, para mim parece muito simples e justo: os bandos, todos eles, devem morrer por terem provocado a morte do transeunte inocente, mesmo se a tal bala - ou balas - tiver sido disparada pela polícia. Ora, mesmo se as armas dos bandidos fossem facas. Afinal, não são armas que matam pessoas. São as pessoas que matam as pessoas. São as intenções delas. No nosso caso hipotético, os policiais não tinham intenções de matar pessoas inocentes, mas os bandidos tinham. É simples e sofisticado.

A intencionalidade do ato deveria ser crucial na determinação do princípio de talião. Isso exclui, por exemplo, certos tipos de acidentes. A não existência de banalidade do motivo inocentaria, por exemplo, aquele que matou em legítima defesa. Na verdade, a legitima defesa, ainda que instintiva, está apenas punindo previamente o agressor que intencionava matar a vítima.

Uma reforma inteligente em nosso código penal adotaria, sem medo, esse princípio. Se alguém considerar isso como sendo bárbaro ou antigo, não está vendo a justiça como uma balança. Logo, não vislumbra a verdadeira justiça.

Imagine que a vida de uma jovem estudante de uma família de bem seja morta por ela ter reagido a um assalto. Por mais que a mídia sugira, com milhares de dicas para se evitar e sobreviver a assaltos, que, nesse caso, a culpa da morte foi da própria estudante (por ter reagido), qualquer pessoa com um mínimo de sensatez sabe que isso é um absurdo. Os bandidos adoram quando a mídia ensina a população a ser assaltada. Sim, isso facilita muito a vida deles. Mesmo assim, não tem muito problema quando eles matam a jovem, pois eles sabem que continuarão vivos mesmo se forem capturados. Eles sabem que, para proteger suas vidas há tanto a lei que eles mesmo infringiram quanto os ideólogos dos direitos humanos. Logo, não é preciso ter inteligência para ver que leis ou ideias desse tipo fazem qualquer coisa, menos justiça.

Não importam os argumentos que esses ideólogos apresentem. O fato que eles não podem mudar é que é vantajoso no Brasil, para alguém com a ficha suja na sociedade, cometer sempre mais crimes. Ora, se minha proposta representa um endurecimento das leis contra aqueles que as infringem e aumenta as punições sentidas por todos antes de infringi-las, consequentemente ela aumentaria o medo daqueles com más intenções. Quem não deve não teme. Os cidadãos de bem não deveriam ter medo, mas é o que ocorre hoje. Minha proposta simples provoca o medo apenas em eventuais assaltantes, assassinos, estupradores e bandidos em geral. Quem for contra isso, só não pode ser uma pessoa de bem e certamente não tem intenções muito boas para com a sociedade.

A ingenuidade da lei brasileira em relação à natureza humana

É urgente a necessidade de estudos sérios de cientistas comportamentais da espécie humana (biólogos, psicólogos evolucionistas, zoólogos, etólogos etc) fazerem parte das bases de nossa legislação. Estudos científicos sérios mostram que o preconceito é parte inerente de nosso comportamento e não é possível retirá-lo sem que descaracterize nossa própria natureza humana. As pessoas, em todos os locais do mundo, temem aqueles que não são iguais a ela. É instintivo. E foi crucial para a sobrevivência da espécie em nossa jornada evolutiva e mesmo hoje em dia ainda faz esse papel. No máximo o preconceito pode ser mascarado, ainda que superficialmente, sob o nome de cortesia ou bons modos. Mas sempre haverá a exclusão entre grupos de pessoas diferentes. Sim, por mais que alguns pseudointelectuais insistam do contrário, as pessoas são diferentes e algumas são até melhores que outras.

Em relação às leis, o problema é que elas consideram as pessoas como sendo incapazes de sentirem preconceito. Veja bem. Uma das funções da prisão é reinserir e reeducar o preso na sociedade, quando na verdade isso é de uma ingenuidade incrível.

Sabemos que, quando capturado e julgado um praticante de um crime hediondo, nossa lei o manda para a prisão durante um determinado período de tempo. Certo. Mas depois? Quando esse indivíduo for solto, as nossas autoridades esperam que ele vá contribuir para a sociedade de que forma? Qual empresa aceitaria um criminoso desse tipo como empregado? Quais funcionários, sendo os funcionários pessoas de bem, aceitariam ter um colega desses? Devemos parar de ser hipócritas e querer forçar que as pessoas - sejam empresárias sejam empregadas, sejam o que for - a aceitar sem preconceitos um indivíduo que matou gente inocente. É uma ingenuidade inútil, para não dizer burrice, esse tipo de pensamento dentro de qualquer tipo de lei de qualquer país.

Mesmo que o ex-apenado assassino queira mudar de vida e o Estado tenha feito bem o seu papel de reeducar, sua imagem estará suja para sempre perante a sociedade e ele sabe disso. Ele sabe tanto que, não importa qual crime ele venha a praticar no futuro, suas perdas sociais (imagem social, estigma) não podem ficar piores do que já estão. Logo, para uma pessoa dessas, não custa nada cometer mais assaltos e, por que não, latrocínios. Afinal, a sociedade não o aceita mais e, assim, ele se transforma num parasita. O Estado apenas terá gastos com uma pessoa desse tipo e não só financeiros, mas também custo psicológico com a perda de vidas humanas inocentes que serão tiradas apenas por causa desse indivíduo que não tem mais jeito.

Ativistas dos direitos humanos e outras pessoas da esquerda usam esse mesmo argumento para culpar o Estado e a sociedade como verdadeiros produtores do criminoso. Logo, o criminoso assassino é que seria a verdadeira vítima, pois ninguém lhe dá uma oportunidade para mudar de vida. Culpar uma entidade abstrata não resolve nada. Pessoalmente, acho muito difícil uma pessoa desse tipo ter vontade de mudar, já que ele não a teve antes. Afinal, por que teria cometido o crime hediondo se quisesse verdadeiramente mudar? Mesmo assim, assumindo que alguma pessoa desse tipo queira mudar, e assumindo principalmente a verdadeira natureza das pessoas, é uma imensa inutilidade a sociedade perder tempo com uma pessoa dessas, pois sempre haverá preconceitos e ele não será aceito em lugar nenhum. Isso é uma verdade tão imutável quando o fato de sermos humanos. Isso faz parte da espécie. E é uma ilusão acreditar que a as pessoas de bem vá esquecer preconceitos e aceitar ex-apenados.

A conclusão lógica que tiro tanto de verdades científicas quanto históricas é que a sociedade não quer saber de acolher pessoas que já cometeram atos que elas consideram como crimes. Até onde sei, o perdão existe, mas só para casos muito leves. Para aqueles outros que insistiram em ameaçar e retirar a vida de inocentes, suas imagens estão manchadas para sempre e só resta à sociedade eliminá-los de alguma forma. Vislumbro algumas opções: exílio forçado, alteração mental definitiva e pena de morte. Soluções simples, logo sofisticadas.

sábado, setembro 01, 2012

Pela extensão da legítima defesa

É lamentável eu chegar ao ponto de me preocupar em escrever algo neste sentido. Nenhum cidadão deveria sentir medo, até dentro de sua própria casa, mas, diante da situação em que se encontra a segurança do brasileiro honesto, começamos a pensar em aplicar atitudes tachadas por alguns como radicais ou desesperadoras. No entanto, acredito que sejam soluções adequadas ao nosso atual problema. Afinal, estamos cansados desse aumento de crimes contra o patrimônio e a vida de cidadãos brasileiros. Estamos com medo. Isso é um fato. Acredito que melhorias sociais trariam melhorias – ainda que de longo prazo – nessa área da segurança. Mas também acredito que o aumento do número de qualquer tipo de crime só ocorre em casos de aumento de impunidade. É uma questão de matemática. Cada vez mais, no fim das contas, está valendo a pena ser criminoso no Brasil. Afinal, qual é o outro país que oferece um auxílio-reclusão para vagabundos criminosos que não contribuem em nada para a sociedade, cujo valor é superior ao salário mínimo de um trabalhador honesto? Qual o país que insiste em desarmar sua população diante de seres inferiores que - segundo dizem algumas organizações de direitos humanos - seriam humanos?

Devemos começar um debate: considerando que esses direitos humanos são válidos, será que podemos classificar esse tipo de gente como humano apenas seguindo critérios genéticos? Ou o status de humanidade também exigiria critérios morais? Afinal, será que aquela pessoa que praticou aqueles atos é igual a mim? Um assassino ou um assaltante têm os mesmos direitos que eu? Acho que, quando começamos a fazer perguntas que têm respostas óbvias, isso significa que estamos chegando num ponto crítico da já conhecida imbecilidade coletiva brasileira, como diria Olavo de Carvalho.

São belos os preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sinceramente, acredito que o mundo seria bem melhor se todos os respeitassem. O problema é que muita gente não está ligando muito para isso. Provas? Ligue a televisão. No Brasil a coisa está ridícula; ao ponto de as pessoas estarem apenas aguardando para serem assaltadas e mortas nas ruas e até dentro de suas próprias residências por indivíduos armados. Como eles conseguiram essas armas? Quem as vendeu? Estamos nos acostumando com o absurdo. Mas sempre é bom lembrar do óbvio: enquanto os piores elementos de um país tiver acesso às armas de fogo e a população honesta não, o problema tende a piorar.

Quando, num futuro Brasil hipotético, nosso governo vier a facilitar o acesso de armas de fogo aos cidadãos honestos (tomara que sejam), não basta chegar na loja e comprá-las. É preciso aprender a possui-las, assim como fazem os suíços desde sempre. Sim. Lá as crianças brincam de tiro ao alvo com rifles de verdade e o crime é simplesmente inexistente. Por lá eles tem as cidades mais pacíficas do mundo. Aqui entro novamente com a matemática: na Suíça, quando um bandido pensa em assaltar a casa de alguém ele deve colocar na balança dos custos por tal prática a sua própria vida. Os suíços são muito bons no tiro ao alvo. Um tiro, uma morte.

Alguém poderia estar pensando que os suíços possuem uma realidade muito diferente da nossa e que esses argumentos não caberiam no Brasil. É verdade. Enquanto continuarmos pensando como cidadãos de um país subdesenvolvido, sempre o seremos. Eu responderia dizendo que a única diferença relevante entre o Brasil e a Suíça é que eles não possuem inimigos. E nós ainda insistimos em tratar indivíduos criminosos e sem humanidade como se fossem nossos cidadãos e ainda com plenos direitos. Procure no dicionário o que é cidadania.

Se, por algum dispositivo legal, nosso governo reconhecesse que estamos numa guerra contra indivíduos que insistem em ser a escória da nossa sociedade, e permitir que possamos nos defender, vislumbro melhorias a curto prazo. Sim, amigos. Estamos em guerra. É só ver os números. Só num estado como o Rio de Janeiro morre bem mais gente do que em Israel, um país em guerra constante. A diferença entre o Brasil e Israel nesse sentido é que eles se preocupam mais com a vida humana do que nós. Basta um deles ser morto que a força é aplicada. Por aqui, morremos aos montes e ninguém faz nada muito eficiente.

Assim, vemos que um dos efeitos do estatuto do desarmamento pune aqueles que são de bem e recompensam aqueles que não mereciam nem ter nascido; simplesmente porque não funciona para os bandidos, mas sim para nós. Desde a implantação desse estatuto, a venda de armas legais caiu 90% enquanto que os homicídios só fazem aumentar. A conclusão disso é que o desarmamento da população é completamente ineficaz para redução de homicídios, além de nos deixar à mercê de pessoas mal intencionadas e armadas. Sinceramente, não gosto da ideia de possuir uma arma. Mas também não gostaria que os bandidos tivessem certeza de que não possuo nenhuma aqui para me proteger.

Ora, se uma pessoa dessas, que já está com a vida estragada por uma série de passagens pela polícia, é pega com uma arma ilegal, isso não fará nenhuma diferença para ela, que já está fadada à exclusão social desde que começou sua vida criminosa. Mas se, por exemplo, um professor universitário dedicado e honesto for pego na mesma situação, com uma arma ilegal que adquiriu para proteger a sua família, os custos financeiros e sociais disso são imensos para ele. Assim com Dona Odete, de 87 anos, que matou o homem que invadiu seu apartamento e tentou estrangulá-la – ele será processado judicialmente e terá chances sérias de perder o emprego público que tanto se esforçou para possuir. Novamente, matemática. Se o parasita social matar o professor universitário durante um assalto ele não perderá muita coisa, pois já não tem nada a perder.

Nunca esqueça: esses que não tem nada a perder constituem as criaturas mais perigosas que existem. Quando as autoridades entenderem e colocarem em prática leis eficientes e inteligentes que consideram essa realidade, acredito que as coisas vão melhorar e muito para as pessoas que realmente trabalham e ajudam a desenvolver o país.

Por isso, acredito que apenas alguém muito sem caráter usaria a bandeira dos direitos humanos para salvar a vida de um assaltante, assassino ou estuprador; ao passo que não fez absolutamente nada para proteger a vida do homem honesto que foi tirada por esse mesmo assassino ou a moça que foi estuprada por esse mesmo estuprador. Onde estão os direitos humanos das vítimas? Para mim, uma pessoa que faz isso de forma consciente está no mesmo nível do bandido; ou abaixo. Culpar a sociedade ou as injustiças sociais para justificar a morte do homem de bem é inútil, já que eu poderia usar a mesma desculpa para justificar a morte do bandido. Assim, a culpa não seria de ninguém e sim de uma entidade abstrata, um culpado invisível, o capitalismo talvez?

Para qualquer pessoa com uma inteligência mediana é fácil entender que quando um indivíduo pega uma arma e sai para assaltar alguém, ele já está admitindo a possibilidade de matar esse alguém caso a vítima não contribua com suas “nobres” intenções de ferir, humilhar e roubar. Não precisa de muita inteligência também para saber que tal indivíduo deveria estar morto assim que pegasse na arma para realizar o tal assalto. O argumento é simples: supondo que a vida de alguém honesto tem mais valor do que a vida de um criminoso (para mim isso é óbvio), devemos prevenir a morte de quem? Depois que o homem de bem morre ou sofre os danos físicos, psicológicos e materiais do crime já é tarde demais. A “justiça” não vai fazer nada para trazer a vida do homem honesto de volta. E os impostos que o morto pagou a vida inteira ainda serão utilizados para sustentar a vida de seu próprio assassino na prisão, de onde poderá sair e realizar outros assassinatos. Somos mesmo uns palhaços. O argumento aqui não é favorável ao extermínio de criminosos – ainda que muita gente fosse achar isso ótimo. Longe disso. Mas sim à prevenção do direito de vida do homem de bem.

Em Israel, onde são bem mais inteligentes do que nós, eles se preocupam muito com a vida dos seus cidadãos de bem e tomam medidas preventivas eficazes. Lá, os inimigos da nação são tradados como inimigos da nação. Eles usam medidas coerentes com uma extensão do direito de matar em legitima defesa. No Brasil, quando um assaltante é morto, quem se prejudica é a pessoa que tentou se proteger. Existe algo mais absurdo que isso?

Certamente, alguns pseudointelectuais fumadores de maconha de plantão – um dos principais sustentadores de grupos criminosos – achariam absurdas as palavras deste artigo. Mas isso só duraria até o momento em que eles tivessem suas casas invadidas por um marginal armado que faria suas famílias reféns, humilharia todos seus entes queridos de forma absurda e tiraria deles todos os pertences que trabalharam durante anos ou décadas para conseguir. Resumindo, seria muito bom se todos estivessem desarmados, mas não estão.

Recentemente, a grande mídia faz festa com a onda de crimes; e se proliferam programas sensacionalistas na área policial. Ela também demonstra preocupação com o cidadão, fornecendo-lhe dicas de como reduzir as probabilidades de ser vítima de assaltos e de sobreviver quando for abordado pelos criminosos. Essas dicas, apesar de servir para alguma coisa, só passam mais a sensação de insegurança e, no fim, entra no bolo das informações que não são de grande utilidade e que servem para aumentar a audiência e reproduzir o conformismo à vitimização e o medo. Sinceramente, acho que está na hora de reagir. Com um pouco de inteligência legal e operacional nossas autoridades podem começar a erradicar esse mal com grande facilidade. Ou seja: o problema são as leis. O código penal está prestes a ser mudado. Talvez não sejam as mudanças eficazes, mas nada impede que ouras propostas mais inteligentes sejam propostas e aprovadas.

Em curto prazo, já que o estatuto do desarmamento não permite que nos defendamos com eficácia, seria uma atitude inteligente se nossas forças de defesa (polícias e exércitos) fossem ser legitimadas a exercer essas funções preventivas eficazes que outros países já fazem para proteger a vida do cidadão honesto.

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Caráter, impunidade e a corrupção no jeitinho brasileiro

Já há um bom tempo venho percebendo nuances comportamentais que me levaram a diferenciar as pessoas que moram na capital daquelas que moram nas cidades do interior. Os indícios são fortes, ainda que não consiga prová-los por enquanto. Mas as pessoas que vêm do interior são, em sua maioria, mais bem educadas, cordiais e seguras do que as que vivem aqui em Natal, que carecem de valores exemplares. Seria a competitividade? Seria a corrupção da alma pelo poder? Seria a cultura do egoísmo? É o capitalismo? É o Brasil? Sou ingênuo demais?

Não sei, mas o que eu percebo é uma perda de valores independente de sexo, classe social e idade. Certamente tal dúvida fará parte de minhas pesquisas futuras. Pierre Bourdieu será um bom começo na pesquisa, mas também deve ter alguma explicação na psicologia evolutiva para isso.

Voltando, é triste; mas é comum ver aqui pessoas desesperadas que trocam amizades por empregos; jogam fora a confiança por motivos banais; destroem relacionamentos sem qualquer motivo; desrespeitam os outros gratuitamente e coisas do tipo. Eu mesmo diria que esses sintomas ocorrem por que as pessoas são humanas. Desrespeito, traição e desconfiança são coisas comuns de nossa espécie. Mas o que diferencia as pessoas? Por que algumas, apesar de serem humanas, mantém valores superiores como a cordialidade, a honestidade e o respeito; enquanto outras não fazem qualquer questão disso?

Por exemplo, hoje vi um senhor de idade entrando em desespero depois de se envolver num pequeno incidente de trânsito. Não houve nenhum dano material relevante. Por impaciência e falta de destreza ele acabou arranhando o carro de outra pessoa, mas, na falta de segurança e controle psicológico - talvez devido à idade, ele se defendeu da culpa de forma ilógica, por meio de xingamentos, descontrole e recorrendo a um eventual poder superior que possuiria, o qual lhe garantiria a impunidade por tal ato. No fim das contas, o idoso tentou colocar a culpa no outro e o ameaçou com uma suposta autoridade. Não sei até que ponto esse comportamento é comum numa escala mundial, mas acredito que pelo menos aqui no Brasil esse comportamento e o recurso a ameaças que o envolvem ("você sabe com quem está falando?") não são punidos. No Brasil, qualquer um pode se utilizar disso, como foi o caso do "promotor de justiça" idoso do caso; e ainda ter algum tipo de crédito.

Não é a primeira vez que vejo crimes contra os valores ocorrer de perto. Há tempos, testemunhei algo do tipo, quando uma pessoa, percebendo que ninguém faria nada a respeito, tentou punir um ato de furto feito por um amigo seu. Na verdade, quem foi punido foi quem tentou tentou punir. Todos ficaram contra quem queria fazer o certo. Ou seja, é a valorização da cultura da malandragem? Parece que, no Brasil, é errado ser correto. Ou seja, não é coisa que só encontramos no meio político, como eu mesmo já relatei nos idos de 2005, num artigo para a imprensa intitulado "Eleitores que corrompem".

http://nestorburlamaqui.blogspot.com/2006/08/eleitores-que-corrompem.html

Diferente do que prega o senso comum, não há uma barreira definida entre políticos e povo. É óbvio, mas às vezes é bom ressaltar o óbvio. Ou seja, o que chamamos de corrupção estaria intrincado em todas as instituições de nossa sociedade. Acredito que o que pensamos ser corrupção na verdade é mais uma consequência de falta de valores em todas as relações sociais do que necessariamente uma falha num sistema legal de punições contra corruptos. Em suma, é algo que vem de casa mesmo. Alguns pais, logo cedo, ensinam os filhos as vantagens do jeitinho brasileiro.

Analisando os dois exemplos, perceba que o primeiro demonstra bem o recurso à impunidade para se dar bem; enquanto o segundo caso é a reprodução dessa mesma impunidade , feito por pessoas comuns.

No fim das contas, num nível científico, vale a pena registrar essas desconfianças que formulo por aqui. Mas uma coisa é levantar essas observações. Outra coisa é explicar se isso se relaciona com aquela distinção inicial que fiz entre pessoas do interior / pessoas da capital. Talvez não tenha nada a ver no fim das contas, mas talvez tenha; e isso já vale como uma hipótese a ser posteriormente verificada com base em dados mais concretos.

sábado, janeiro 23, 2010

O país dos lixeiros

Ronaldo. Central do Brasil. Copa do Mundo de 2014. Cidade de Deus. Ayrton Sena. “O melhor do Brasil é o brasileiro”. Recentemente minhas leituras na Internet me levaram por essa questão do patriotismo brasileiro forçado, que a mídia tenta evocar se apoiando, geralmente, em nossas ações medíocres no campo internacional ou, quando muito, em ações grandiosas, mas inúteis para nossos problemas reais. Talvez um pouco de patriotismo seja bom, na medida em que isso seja útil para o crescimento do indivíduo, mas na maioria das vezes não é, sendo apenas um fator importante na reprodução da anestesia social dos povos, que não enxergam sua própria miséria ou, na melhor das hipóteses, limitação. Por fim, não é individualmente útil. Mas sim coletivamente. Nada mais óbvio. Não é verdade? Afirmar que o patriotismo possui utilidade coletiva chega a ser tão óbvio que é impressionante como suas desvantagens escapam à razão individual. Continuaremos torcendo para o Brasil nas copas. Todos juntos. Continuaremos assistindo Fórmula 1 só para reclamar de nossos atuais representantes nesse esporte. É verdade: é bom. O sentimento, as emoções que advém do ato de torcer em grupos é agradável: seja para louvar Ronaldo, seja para tirar sarro do Rubinho. É o que temos de comum. É o que nos faz uma nação... de lascados. Há uma barreira “invisível” que nos impede de ver o quanto estamos pobres, atrasados, condenados. Enquanto essa barreira continuar por aí, sendo mantida por todas as estruturas sociais, das quais a mídia reproduz e faz parte – e ao mesmo tempo é "vítima" – o povo brasileiro, assim como os outros em situação semelhante, continuará cego. Lembro de Boris Casoy, pois nada melhor para exemplificar isso do que a chamada televisiva onde dois lixeiros, cegos em suas limitações, e “do alto de suas vassouras”, desejam feliz 2010 para o Brasil. E eu me pergunto que tipo de felicidade é essa.

sexta-feira, abril 24, 2009

O Egoísmo latente

A ciência social é incoveniente. Em alguns dos produtos cognitivos oriundos de seu uso, encontramos aspectos considerados desagradáveis para a maioria das pessoas que acreditam na existência do altruísmo puro.

O estudo da racionalidade humana e das preferências dos indivíduos nos indica que mesmo atos comumente considerados bondosos possuem uma base meramente egoísta, incluindo-se aí ações solidárias, doações e sacrifícios.

Está longe de ser unânime, mas podemos explicar atos assim através de necessidades psíquicas de auto-estima ou por proporcionarem o prazer de dar prazer aos outros. Exemplos: o sacrifício de um soldado, que dá sua vida pelo seu país, pode ser explicado pela recompensa simbólica de ser tido como um "verdadeiro herói" pela comunidade. Ou alguém que dá presentes aos pobres por imaginar que sua divindade lhe recompensará. Segundo Mary Douglas, essas explicações nem sempre funcionam e, por isso, ainda podemos vislumbrar a possibilidade da bondade humana.

No entando, a criminalidade e os desvios de conduta nas regiões mais pobres, em contraste à tranquilidade de regiões mais ricas apenas reforçam a crença no egoísmo humano latente como base de nossa racionalidade.

Porém, mesmo que essa idéia seja realmente verdade não devemos jogar tudo para cima e desistir da humanidade. Precisamos, apenas, reconhecer-nos socialmente egoístas e projetar comunidades de forma adequada. Reformular as já existentes de forma a construir sociedades melhores.

Não é no Brasil

Com base no sociólogo Mark Granovetter (1978), podemos dizer que o comportamento violento de indivíduos durante algumas manifestações pode ...