sexta-feira, março 18, 2016

O golpismo petista

Em 1993, o Partido dos Trabalhadores (PT) entrou com um pedido de impeachment contra o presidente Itamar Franco. Durante o governo FHC, o PT entrou com quatro pedidos de impeachment contra o então presidente Fernando Henrique Cardoso.

"Pela primeira vez na América Latina, o povo brasileiro deu a demonstração de que é possível o mesmo povo que elege um político, destituir esse político.", dizia o Lula a respeito do fato de Collor ter sofrido o impeachment. O ex-presidente adorava o impeachment e não tinha vergonha de declarar isso.

Agora, quando o PT é o alvo, seus membros hipócritas agem como se fôssemos idiotas, acusando um pedido de impeachment de golpismo, atiçando comportamentos agressivos de sua militância cega e adotando, sem qualquer tipo de vergonha, um vitimismo de dar nojo.

Ao mesmo tempo, seus lacaios mais influentes recorrem ao uso da violência para agredir qualquer um que seja contra o que pretendem, convocando fanáticos para queimar veículos de imprensa, como fez o dirigente do PT, Crispiniano Neto, em Natal-RN.

Não há muito o que debater com pessoas desse tipo. Apenas encarcerá-los, como prevê a lei. Afinal, é isso o que se faz com gente que coloca seu projeto de poder acima de todos os valores, incluindo-se ai o valor da vida alheia, como é de se esperar de um grupo que compartilha os mesmos ideais de Che Guevara, Hugo Chavez e Evo Morales, ditadores, assassinos, populistas e comunistas, usurpadores da democracia na America Latina, aliados.

Prezados, o golpe está sendo perpetrado, mas não por quem apoia o impeachment - que é algo previsto em lei - mas sim pelo próprio Partido dos Trabalhadores e seus aliados.

O governo Dilma não é aprovado por 92% da população brasileira e mais de 2/3 do país pede seu impeachment. Nem Collor tinha tanta rejeição. Vamos seguir os conselhos do próprio Lula. Vamos exercer nosso direito de destituir políticos corruptos.

terça-feira, dezembro 22, 2015

Baixaria agora é moda.

Não é de hoje que percebo uma redução nos valores morais em nosso país, um aumento generalizado na pobreza de espírito e na valorização da baixaria instintiva de cada um de nós. Alguns podem dizer que isso talvez seja apenas uma impressão minha, e que o brasileiro sempre foi assim e que a coisa estaria mais visível apenas por causa da popularização da internet. Bom, discordo parcialmente.

A popularização da internet não é apenas um fenômeno que expõe de forma generalizada determinados comportamentos considerados imorais (consumo de drogas de todo tipo, desvalorização da mulher, práticas sexuais inusitadas, comentários agressivos desnecessários etc). Essa popularização possuiria também um papel crucial num processo de destruição de normas relacionadas à moral dos indivíduos em nossa sociedade, num efeito semelhante ao processo de informalização, no qual as pessoas passaram a agir de forma mais informal, como relata Steve Pinker1.

Enquanto o processo civilizador foi um fluxo de normas e maneiras das classes altas para as mais baixas (o que reduziu drasticamente os homicídios na Europa desde a Idade Média), o processo de informalização - ocorrido a partir do fortalecimento da democracia nos países ocidentais - foi o contrário, afetando a forma como as pessoas se vestiam, a linguagem e a conduta, de modo que, hoje, vestir-se com sapatos e calça social é motivo para o riso em vários grupos; e o respeito ao próximo reduziu-se de uma forma que vai muito além de simplesmente chamar os outros pelo primeiro nome no lugar de "senhor" ou "senhora".

Um exemplo dessa coisa é o caso de Ruth Lemos. Em 2006, a nutricionista virou piada na internet após protagonizar uma entrevista na qual ela falava, com uma hilária dificuldade, a respeito dos valores nutricionais de um sanduíche. Naqueles tempos, um conhecido me repreendeu por eu estar rindo da pobre mulher. Afinal, ela deve ser uma pessoa honesta e deve ter uma família; e ser ridicularizada publicamente certamente pode possuir um efeito prejudicial em vários aspectos, começando pelo psicológico. Nada mais sensato! De fato, divertir-se com esse tipo de coisa e ainda por cima espalhar por aí na intenção de fazer os amigos também rirem da mulher não é algo a se ter orgulho. Assemelha-se muito com o comportamento de crianças praticando bullying, não é mesmo?

De forma contraditória, hoje em dia, a mesma pessoa faz pior do que eu, divulgando videos semelhantes sem qualquer tipo de cerimônia. O que aconteceu? É claro que não podemos pegar o exemplo de uma pessoa e dizer que todo mundo mudou, mas há indícios de que as pessoas em geral estão realmente mudando seu comportamento e deixando seus princípios para lá, adotando apenas o que a "maioria" dita2.

Outro exemplo, mais recente, é o caso "Leo e Fabíola". Falo dele aqui não para debater quem tem menos razão nessa história (como muita gente faz por aí), mas sim para criticar o próprio fato de todos nós termos perdido um bom tempo nos divertindo e comentando a tragédia alheia. Já faz um bom tempo que perdemos a noção de caráter. O pior mesmo é que, se você não souber do caso, será chamado de desatenado, sendo prontamente pressionado a participar da falta de caráter dos outros. Gostar de baixaria virou moda.

Isso sem falar em indícios mais óbvios, como o aumento no consumo de drogas (especialmente cocaína e derivados), o aumento da criminalidade e da violência; isso sem falar nos inúmeros vídeos de cunho privado, cada vez mais divulgados na internet. Menininhas de 14 anos que dançam funk carioca até o chão e com pouca roupa, no Youtube, certamente estão longe de se respeitarem. Aliás, qualquer mulher ou homem que se rebaixe ao nível de se enxergar apenas como um corpo está longe de se valorizar, mas o problema maior não é eles fazerem isso e divulgarem na internet, mas sim o fato de coisas desse tipo estarem sendo imitadas, consideradas algo exemplar.

Como já comentei, esse fenômeno de empobrecimento moral pode ser explicado por um processo no qual as normas de comportamento estão indo de baixo para cima, onde as pessoas que possuem comportamentos e atitudes mais nobres começam a adotar comportamentos vindos da "ralé moral", que não seria necessariamente a ralé econômica, os pobres, pois é sabido que tem muito rico sem vergonha por aí.

A popularização da internet e dos smartphones faz com que normas e comportamentos de todo o tipo se espalhem por toda a população, com pouco ou nenhum filtro. Enquanto nas mídias tradicionais (rádio e TV) essa destruição de normas morais tenha sido sempre presente (em nome do lucro e da audiência), ela possui um mínimo de um filtro que seja (nem que seja pelos códigos deontológicos), mas não podemos esquecer de quadros televisivos estilo Banheira do Gugu ou Pânico na TV e de músicas com letras de cunho sexual que enaltecem comportamentos de farra descompromissada: "beber, cair e raparigar", "novinhas descem até o chão e eu tô ostentando", e coisas do tipo, que tocam a todo instante nas rádios mais populares do Brasil inteiro.

O que podemos aprender com tudo isso é que há uma pequena possibilidade de isso ser revertido, pois os mesmos instrumentos que são usados para empobrecer nossa população tão rapidamente com normas da baixaria e da "vida lôka" podem ser direcionados para enriquecê-la com comportamentos e valores nobres. Sabemos que as chances são pequenas, pois a tendência é que tudo piore mesmo, garantindo que o futuro Brasil seja um péssimo lugar para se viver, pelo menos para gente com um mínimo de decência. Calma! Não seria motivo para se desesperar, mas sim para começar a fazer o contrário.

As pessoas deveriam ter orgulho de suas convicções e começar, de alguma forma, a usar a internet para espalhar normas e valores nobres e tradicionais de respeito a si mesmo e ao próximo, que tantas pessoas ainda possuem, mas tem vergonha de demonstrar. Um dos obstáculos para isso é o fato de que as religiões, uma das maiores difusoras de normas e comportamentos respeitáveis, estão ficando fora de moda. Ridicularizadas desde meados da década de 1960, via mídia de massa, em mensagens criadas pela nova esquerda, as religiões judaico-cristãs - a base moral da nossa civilização - nunca foram tão menosprezadas, como podemos ver no sucesso de programas humorísticos do tipo Porta dos Fundos, que fazem piadas pesadas contra o cristianismo, mas não falam nada contra as "minorias", o grupo mais sagrado da atualidade. Criticar o comportamento homossexual usando piadinhas pode custar caro, um processo judicial ou, no mínimo, uma chuva de xingamentos virtuais. Agora fazer piada do papa ou de Deus parece não ter problema algum.

Portanto, quando estiver gargalhando, divertindo-se com a traição alheia, compartilhando videos íntimos dos outros, ou coisas do tipo, mostrando para seus amigos e tudo o mais, saiba que você está apenas juntando-se ao grupo cada vez maior da ralé moral brasileira, espalhando ainda mais as normas que cada vez mais prejudicam nosso país.

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[1] Veja mais na obra "Os anjos bons de nossa natureza", na qual Steve Pinker descreve as razões pelas quais a violência diminuiu no mundo inteiro, por meio de certos instintos humanos.

[2] Coloquei a palavra maioria entre aspas, pois pode ser uma aparência de maioria, onde os indivíduos apenas acreditaram que aquele comportamento é seguido por muitas pessoas e que fazer o mesmo lhe faria receber recompensas sociais.

[3] Veja mais na matéria "Popularização dos smartphones incentiva novos empreendimentos", publicada em 01/12/2014, no site da Folha de S. Paulo.


sábado, novembro 14, 2015

Paris: como o mundo ficou burro


Alguém lembra de ter visto o mundo inteiro dizendo "#PrayForIsrael", quando bombas explodiam crianças, homens e mulheres inocentes em Jerusalém? Alguém lembra de ter ouvido lamentos pelas dezenas e centenas de mísseis diários disparados pelo Hamas contra o sul de Israel? E os recentes ataques com facas? É mais provável que você tenha visto, na televisão, críticas do mundo inteiro contra Israel, geralmente se utilizando de uma imagem de um Estado judeu opressor que invariavelmente adota o "uso desproporcional da força" para promover o genocídio do povo palestino.

A mídia internacional - poluída pela inversão de valores da nova esquerda - estaria dando o tom do espírito do mundo, incluindo-se aí as reações das autoridades. E nessa onda ideológica, temos a virtude condicionada não pelos atos, mas sim pelo seu poder. É a crença esquerdista na virtude dos oprimidos, como havia sugerido Caio Blinder. "Ora, nessa história aí, o vilão só pode ser o mais poderoso dos dois lados, não é verdade?", pensa o mundo, via onda midiática. Israel, portanto, é o vilão. "Se os Estados Unidos sofreram os atentados de 11 de setembro, deve ser porque ele é um país imperialista e deve merecer isso. A culpa é dele.", pensam outros.

Agora, quando Paris é atacada pelo mesmo mal, não adianta chorar muito.
A ironia encontra-se no fato de os franceses serem famosos pela sua judeofobia anti-israelense e um dos primeiros a racionalizar atentados contra civis israelenses como consequência de uma política violenta e separatista judaica. Reflexos desse raciocínio podem ser encontrados em toda a Europa. "Vamos boicotar Israel!". Como um indício, temos uma pesquisa, em 2003, que indicava 60% dos europeus considerando Israel a maior ameaça à paz mundial. E agora? Como racionalizar os atentados no coração da Europa, meus caros?

A Europa já era! 
O bom senso fugiu da mente dos europeus; e talvez possamos culpá-los por adotarem certas ideias autodestrutivas. E a ideologia integralista multiculturalista politicamente correta da nova esquerda é uma delas. Quem pensa dentro dessas diretrizes não consegue ver o perigo óbvio quando ele está se aproximando, coisa que os mais experientes sabem e os mais sensatos se lembram.

- Quando os judeus são perseguidos ou escapam, é hora de fazer as malas. - já dizia um ancião iugoslavo, certo dia, à jornalista espanhola Pilar Rahola. O velho estava lhe contando o segredo de como havia sobrevivido à "história eriçada de guerras em seu país", como relata Pilar num artigo chamado "A rebelião dos canários" que, escrito há mais de dez anos, hoje vejo como um texto profético.

"Os mineiros tinham, até bem adiantado o século XX, uma técnica infalível para proteger-se nas profundidades da rocha: os canários."

"A pequena ave, mais sensível que o homem à falta de oxigênio e aos gases tóxicos, morreria primeiro que estes se nas minas houvessem gases venenosos ou demasiado monóxido de carbono. Se os mineiros vissem os canários morrerem ou asfixiarem-se, sabiam que deviam abandonar a mina à toda velocidade."

"O canário era o primeiro que sofria por um mal que acabaria por matar a todos", escreveu Pilar.

Hoje, Israel é o canário do mundo. O problema é que o mundo tornou-se um minerador burro. Ao ver o canário agonizando com o gás tóxico, ele não se alerta. Na verdade faz algo absurdo. O mundo critica Israel e o reprova, ignorando o perigo do gás, e prossegue assim, imbecilizado, até começar a sofrer dos mesmos sintomas.

Não foi por falta de aviso.
"Se, como a Checoslováquia, Israel cai ante o fundamentalismo, qual será o próximo passo? França, que tem em seu seio milhões de muçulmanos e onde os grupos fundamentalistas ganham cada vez mais poder? Inglaterra, onde imãs fundamentalistas queimam bandeiras inglesas?", profetizava Pilar.

Na França, antes de a coisa ficar mundialmente visível após o ataque contra o Charlie Hebdo, já fazia um tempo que europeus nativos sofriam hostilidades por parte de grupos de muçulmanos que moram por lá, o que aumentou o preconceito contra esse grupo, algo totalmente compreensível. Mas também não foi por falta de incentivo, pois os muçulmanos se tornaram um importante eleitorado da esquerda: 93% votaram no presidente socialista François Hollande na última eleição.

Ou seja: já faz um bom tempo que vários setores políticos franceses de esquerda apoiam o crescimento do islã justamente por razões de poder, e utilizando-se da ideologia multiculturalista nesse sentido.


Além disso, há um quase imperceptível paradoxo moral quando vemos a mídia internacional lamentar os acontecimentos de Paris ao mesmo tempo em que faz justamente o que querem os terroristas, divulgando seus feitos e espalhando o medo pelo mundo, inclusive dando-lhes os devidos nomes. "O Estado Islâmico conseguiu perpetrar um atentado sofisticado como nunca tinha feito antes", comentava a repórter da CNN, falando sobre Paris. Sofisticado! Que elogio! Toda essa visibilidade, todo esse show midiático, é tudo o que eles querem: um incentivo a mais do Ocidente.

Depois do choque, temo que o mundo não aprenderá essa lição. 
Guiado pelos valores da nova esquerda, tentará resolver o problema usando valores civilizados para com quem lhe deseja a destruição incondicional, talvez nos mesmos moldes que a presidente socialista Dilma Roussef sugeriu: dialogando. O mundo ficou burro e não podemos fazer nada sobre isso.


segunda-feira, agosto 31, 2015

Será que é racismo?

"Palestrante negro é barrado em portaria de hotel cinco estrelas que sedia seminário em São Paulo”.

Esse foi o título de uma matéria publicada no dia 28/08/2015 por diversos sites. O palestrante era Carl Hart, professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia que veio ao Brasil participar de um seminário criminal. De acordo com a notícia, ao começar sua fala no evento, ele teria dito: "Olhem para o lado, vejam quantos negros estão aqui. Vocês deviam ter vergonha". Segundo a matéria, não havia nenhum negro na plateia. Até mesmo o organizador do evento, Sérgio Salomão Shecaira, teria dito: “É bom para mostrar como vivemos em um país racista”.

O problema é que a matéria era falsa.

Carl Hart estava no hotel e realmente iria participar de uma palestra, mas ele não foi barrado e o organizador do evento também não fez tal declaração. Isso, claro, nos leva a outras perguntas, como: A quem interessa a criação de uma mentira desse tipo? A quem interessa a imagem de um Brasil repleto de racismo? Já falei, no último post, a respeito da tentativa de gerar conflitos na sociedade brasileira por meio da polarização de opiniões.

A matéria possui características encontradas em outras notícias “baseadas em fatos reais” e nos serve de ponto de partida para realizar uma análise mais apurada sobre o racismo no Brasil.

Uma dessas características é a forma de enquadramento, visível já no título: “Palestrante negro…”, semelhante a outras notícias que vemos por aí: “Professor homossexual é atropelado…”, “Travesti é assassinado…” etc., onde a pessoa objeto da matéria adquire uma identidade que se adequa à uma das minorias criadas pelo politicamente correto, já com a clara intenção de sugerir que a pessoa foi agredida/morta/discriminada apenas pelo fato de ser gay/negro/pobre. Quer dizer, as pessoas não são mais, médicas, advogadas, professoras ou secretárias. Muitas vezes elas perdem o nome e a história de sua vida para serem classificadas, por uma parte da mídia, conforme certos interesses.

Esquecendo-se um pouco dessas intenções de se criar a imagem de um Brasil racista, homofóbico e elitista burguês, vamos nos concentrar aqui na questão do racismo em si, a qual acredito que seja mais complexa do que muitos querem nos fazer imaginar. Além de muitas vezes um comportamento denunciado como racismo não o ser de fato, ainda existem outras possibilidades, que vão desde uma segregação não intencional, passando por uma discriminação não racial e até mesmo podendo ser um fenômeno que eu costumo chamar de "racismo seletivo”.

RACISMO SELETIVO
Em agosto de 2014, alguns torcedores gremistas chamaram o goleiro santista de macaco durante partida realizada pela Copa do Brasil. O caso recebeu grande atenção da mídia, ao ponto de Patrícia Moreira (a primeira torcedora a ser identificada por meio das câmeras) ter sua casa queimada num incêndio criminoso e ao ponto de ela ser afastada do emprego.

Mesmo que esse fato seja considerado racismo, ele é - claramente - um racismo seletivo. Acredito que, no Brasil, mais do que ser um racista pleno, a maioria dos indivíduos seriam racistas seletivos, usando xingamentos desse tipo apenas quando lhes convém.

Afinal, não seria estranho xingar o goleiro do Santos enquanto não se diz nada a respeito dos jogadores negros do Grêmio?

Sim, na época o Grêmio possuía alguns jogadores negros e, pelo que pude observar no site do clube, acredito que hoje possua ainda mais. Segundo esse tipo de racismo, os jogadores negros dos outros são macacos, mas os nossos são lindos.

DISCRIMINAÇÃO NÃO RACIAL
Existem diversos tipos de preconceitos e discriminações no mundo. No Brasil, isso não é diferente e nossos preconceitos vão muito além daqueles que geraram alguma representação política (racismo, sentimentos anti-gay, discriminação contra a mulher etc). É fácil confundir, por exemplo, uma discriminação de classe ou de grupo, com discriminação racial, pois os brasileiros mais pobres possuiriam mais ancestrais negros, como constatam vários estudos nesse sentido.

No entanto, num simples exercício de imaginação, podemos verificar o quanto de discriminação racial possuímos.

Por exemplo, em qual destas situações você teria mais receios: avistar um grupo de dez negros usando ternos e carregando maletas de trabalho ou ver aproximar-se um grupo de dez brancos adolescentes vestindo-se como delinquentes?

Ou imagine-se sendo abordado por um bando de brancos maltrapilhos e cambaleantes. Antes fosse um grupo de universitários africanos. Não é mesmo?

No Brasil, mais do que julgar ou discriminar as pessoas apenas pela cor da pele, como pensam algumas pessoas, discrimina-se mais pela classe social e pelas aparências. Um branco cheio de tatuagens e piercings sofre muito mais preconceito numa entrevista de emprego do que um negro que se enquadre visualmente no estereótipo empresarial.

SEGREGAÇÃO NÃO INTENCIONAL
Em 1971, o economista Thomas Schelling, ganhador do prêmio Nobel, publicou um trabalho chamado “Dynamic Models of Segregation". Segundo ele, as pessoas se separam umas das outras seguindo diversos critérios (sexo, idade, idioma, etnia, religião, gostos, costumes etc). Algumas segregações são intencionais. Outras não. Por exemplo, segundo Schelling, num ambiente de brancos e negros, um comportamento que poderia ser interpretado como sendo discriminação racial pode surgir a partir de preferências simples de ambos os grupos. Nesse sentido, a existência de bairros negros e bairros brancos nos Estados Unidos não seria uma política racista das autoridades, assim como não é intencional a existência, em Natal, de uma separação de classe no decorrer da Praia do Meio, indo até a Praia do Forte. À medida em que se aproxima do Forte dos Reis Magos, a renda per capita eleva-se entre os frequentadores da praia, ao ponto de, na Praia do Forte, assistirmos algumas pessoas passeando de jetski.

Acaso algum ativista do movimento negro analisasse a cor da pele dos indivíduos e comparasse a Praia do Meio com a Praia do Forte, poderia fazer uma denuncia de segregação racial, sendo que os mais brancos não são proibidos de frequentar a Praia do Meio, nem os mais negros são impedidos de frequentar a Praia do Forte. O que ocorre é mais uma questão de preferência entre os indivíduos, cujos critérios são mais relativos à renda do que à cor da pele.

Afinal, todos nós nos sentimos mais à vontade quando estamos perto de quem é mais parecido conosco, fisicamente e intelectualmente, sem que isso represente uma discriminação intencional e reprovável.

Por essas e por outras, é sempre bom analisar com mais cuidado, tanto a veracidade de notícias divulgadas na internet quanto casos desse tipo, antes de ir classificando as pessoas como sendo racistas, pois elas podem estar apenas seguindo preferências que não tem nada a ver com etnia, ou praticando tipos de discriminações e preconceitos aceitáveis, como é o caso de evitar situações problemáticas e perigosas.

quarta-feira, julho 22, 2015

Fotos coloridas e conflito social

A modinha já passou. O casamento gay nos EUA já é uma realidade e as pessoas já se cansaram de discutir isso no Facebook. Mesmo assim, este texto é relevante, já que aborda um comportamento que, embora comum, pode tornar-se perigoso para uma sociedade.

Inicialmente, eu estava pensando em explicar a adesão maciça ao ativismo gay nas redes sociais, os tais “coloridos" do Facebook, por meio de um simples modismo no qual boa parte dos participantes teria entrado mais por conformismo ou para parecer uma pessoa esclarecida do que realmente para concordar com uma conquista dos gay rights. No entanto, seria uma explicação muito feijão com arroz dentro do comportamento humano, embora não deixe de ser uma explicação digna de atenção.

Afinal, o conformismo é um dos fatores explicativos mais comuns de todos os tipos de comportamentos sociais humanos. Estamos instintivamente predispostos a concordar com alguém e a participar de torcidas. Aqueles que se vangloriam por aderir à moda dos coloridos racionalizam isso em nome de um avanço sócio-politico ou em nome da liberdade, diversidade e do amor. Aqueles que são contra dizem que é melhor se preocupar com a fome na África. Tanto um quanto outro pensamento são apenas racionalizações, discursos usados para justificar um comportamento que na verdade é mais instintivo do que resultado de uma ponderação racional e imparcial.

Tudo muito normal dentro do comportamento humano, mas isso não significa que algumas dessas coisas sejam imunes à críticas, pois conformismos e anti-conformismos extremistas são perigosos; e tendem a produzir atitudes perigosas que podem ameaçar a nossa civilidade. 

Logo, minha tese aqui é a de que alguns movimentos sociais e ideologias políticas estão adotando uma norma de polarização de opiniões com a intenção de gerar conflitos até então inexistentes em nossa sociedade.

Colorir a foto não é o problema. O problema é querer provocar os outros, acusando as pessoas de serem criminosas homofóbicas e de cultivarem o ódio. No geral, as pessoas não sentem ódio contra homossexuais, embora saibamos que existe gente que sente. No entanto, também sabemos que é uma minoria bem pequena e que ela não justifica tamanha generalização.

Normalmente, a maioria das pessoas apenas ignora, deixando essa história de homossexuais pra lá, pois não é um assunto que necessite de um debate acirrado. Há coisas mais importantes para se preocupar. A maioria sabe que sempre existiram homossexuais no mundo e certamente não concorda com esse tipo de prática sexual, embora não pretenda proibir os gays de fazerem o que quiser com seus corpos e com quem quer que seja, desde que haja consentimento entre as partes, claro. Dentro de uma sociedade onde existe a liberdade individual, pensar dessa forma é comum. Cada um faz o que quer, desde que não interfira no direito do outro. Acredito que esse seja o pensamento da maioria.

Porém, algumas pessoas do ativismo gay pretendem acusar toda a sociedade de ser homofóbica, dizendo que toda ela está repleta de normas heteronormativas e que isso precisaria ser alterado. 

Quando o ativismo busca o respeito para com homossexuais e o fim do preconceito, considero essas ações louváveis e positivas, já que a orientação sexual não define caráter ou valor do indivíduo como ser humano. A intolerância e a violência deve ser combatida.

Porém, quando o ativismo propõe dispositivos jurídicos que colocam gays acima dos outros cidadãos (cotas para concursos, por exemplo), quando o ativismo procura achincalhar os valores e as normas da maioria, como podemos ver em alguns protestos e paradas gay (como os santos católicos em posições eróticas gays), há um problema nisso que vai além da falta de respeito: há uma intenção de enfrentamento que pode gerar - e gera mesmo - correntes de opinião contrárias aos homossexuais em geral, as quais anteriormente inexistiam. Seria esse fenômeno algo proposital? Tudo indica que sim, e planejado pelos cabeças do movimento. Qual a razão de incitar o conflito e o ódio?

Quando isso ocorre, a maioria das pessoas acaba confundido tudo. Por um lado, se um homossexual não colorir a foto do Facebook, outras pessoas - gays ou não - vão questioná-lo de forma agressiva, o pressionando a aderir à modinha, como de fato aconteceu com alguns gays que não concordam com as intenções do ativismo. 

Por outro lado, indivíduos que anteriormente não se importariam com esse assunto, começam a lançar ataques opinativos contra homossexuais em geral. Isso ocorre pois as pessoas não conseguem separar as coisas. Uma coisa é o homossexual. Outra coisa é o ativismo político gay, o mesmo que celebrou a decisão da Suprema Corte americana, o mesmo que deseja implantar o casamento gay em todos os países, o mesmo que deseja implantar educação sexual gay para crianças a partir de seis anos nas escolas aqui no Brasil.

O ativismo está roubando a voz dos gays que não concordam com o ativismo

Cada vez mais a voz de homossexuais que discordam da agenda política, incluindo-se aí o casamento gay, vem sendo calada e, pior, substituída. Não raro, muitos gays sentem-se atraídos pelo apelo dessa ideologia e, no lugar de ter uma opinião própria sobre assuntos relacionados à sua sexualidade ou à sua visão de sociedade, apenas adotam as premissas do ativismo político. Isso tudo representa um conformismo com tendência à polarização, o qual deve ser combatido.

Criticar o ativismo gay, uma ideologia, não é criticar a homossexualidade ou ser homofóbico, como muitos tentam sugerir. É muito comum ver alguns indivíduos fazendo acusações levianas desse tipo. Qualquer crítica ao ativismo gay é uma ofensa e motivo para processo judicial, sendo isso uma ameaça à liberdade de expressão. De fato, alguns dos maiores combatentes, contrários à essa ideologia, já foram processados por expressar suas opiniões. Alguns, como o pastor Silas Malafaia, foram absolvidos. Outros, como o ex-candidato à presidência da república, Levy Fidélix, foram condenados e estão recorrendo da decisão.

Quando uma sociedade decide resolver tudo com base em processos  judiciais, é um indício patológico de que está faltando confiança entre seus indivíduos; e parece ser exatamente essa a intenção de alguns movimentos sociais. Essa estratégia vem claramente de uma visão neomarxista de mundo, onde todas as relações dentro de uma sociedade capitalista implicam o conflito e a desconfiança. Está na hora de parar de cair nessa armadilha ideológica e de ficar nos agredindo por causa de polêmicas artificiais produzidas por movimentos ou ideologias. 


Não é com base no medo e na agressão que os gays, ou os negros ou qualquer minoria coitadinha inventada receberá mais respeito e aceitação da maioria. É necessário gerar um sentimento de união e confiança entre as pessoas. Não o contrário.

sábado, setembro 20, 2014

Lula é o cara!



- Esse é o cara! Eu adoro esse cara.– disse o presidente americano Barack Obama para o Lula, durante o encontro G20 em 2009. O carisma de Lula é inegável, mas nem sempre foi assim.

Para agradar a mídia e o público, o Lula teve que fazer alguns ajustes em seu comportamento, pois antigamente, no início de sua carreira política, ele não tinha uma imagem muito agradável. Sua pessoa geralmente era relacionada a um homem truculento e ignorante. Seu linguajar pobre e o fato de ter estudado apenas até a quinta série fazia todos duvidarem de sua competência para governar uma nação. Mas isso mudou.

Na campanha presidencial de 2002 ele adotou uma nova abordagem com o público, uma nova imagem, quase uma transformação de um monstruoso Mr Hyde num refinado Dr. Jekill. Tornou-se o “Lulinha paz e amor”, um político sorridente e conciliador, diferente do Lula agressivo e sisudo das eleições de 1989, quando recebeu de Leonel Brizola o apelido de “sapo barbudo”.

Embalado pelo sucesso da estabilidade econômica brasileira, pela reputação ilibada e pelos sucessos dos programas sociais, foi esse Lulinha paz e amor que recebeu os elogios do Obama naquele abril de 2009, ano em que foi produzido um filme no intuito de elevar ao status de santo a imagem do petista: “Lula, o filho do Brasil”, o transformando num exemplo de vida e superação, quando não numa espécie de messias.

Porém, embora o Obama só tenha dito aquilo mais para ser amigável do que para qualquer outra coisa (lembram do aperto de mão entre Obama e Raul Castro durante a homenagem a Mandela em 2013?) – o elogio do presidente americano já não condizia com a realidade; que nos mostra um Lula contraditório, tão contraditório quanto as personalidades do médico e do monstro.

O sucesso do programa Bolsa Família, tão cantado pelos entusiastas de seu governo e por ele próprio, era na verdade uma criação do governo de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, só que com outro nome. Na época de FHC, era chamado de Bolsa Escola. Mudar o nome e ampliar o programa foi um golpe de marketing para ganhar de vez a fama pela criação desse programa. E deu certo. Hoje muita gente pensa que o Lula é o criador desse programa e vai continuar votando no PT com medo de perder a bocada.

Mas essa não é a parte contraditória. Na campanha eleitoral de 1998, o próprio Lula havia criticado a criação dos programas sociais no governo FHC como sendo uma moeda de troca em tempos eleitorais, uma forma de se perpetuar no poder. Hoje quem se beneficie eleitoralmente é Dilma, sua cria política. Sim, ele enganou todos nós.

Ora, se o Lula tinha essa ideia sobre os programas sociais, por que, no lugar de extingui-los, ele os ampliou durante seu governo e até hoje faz campanha publicitária em cima disso?

Mas não foi só a fama dos programas sociais que o governo petista roubou do FHC. A estabilidade econômica (e eventuais conquistas no campo econômico) também é usada como um dos grandes feitos do governo petista. Muitos se esquecem de que o Plano Real (1994) foi implantado durante o governo de Itamar Franco, proposto pelo então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, que reuniu diversos economistas no intuito de idealizar o projeto.

No campo econômico, a dívida do governo petista para o antecessor é tanta que, para garantir a vitória nas eleições de 2002, Lula escreveu um documento chamado “Carta ao povo brasileiro”. Nela, dentre outras coisas, ele abandonava o antigo discurso comunista e assumia o compromisso de manter a estabilidade econômica. Tudo para se desvencilhar daquela imagem do sapo barbudo sindicalista esbravejante.

Agora, os entusiastas lulistas e dilmistas pintam os governos anteriores como sendo um mundo de trevas, como visto recentemente numa propaganda divulgada na televisão, no início de 2014.

Essa atitude é previsível, embora represente uma contradição, pois foram justamente as ações realizadas nos governos anteriores que permitiram a atual estabilidade econômica que eles mesmos tanto elogiam. Isso sem falar nos discursos que envolvem os programas sociais, que representam uma contradição maior ainda.

Não preciso, aqui, falar muito a respeito da reputação ilibada do Lula, que recentemente assumiu diante das câmeras que mentia e falsificava dados sobre o Brasil na época em que era de oposição. Basta procurar o vídeo na Internet. É no mínimo revoltante ver o petista dizendo como mentiu descaradamente sobre números de aborto e de crianças-de-rua. O cinismo do ex-presidente petista é incrível. Já que sua desonestidade parece ser motivo de orgulho, tanto para ele quanto para seus seguidores, talvez sejam idiotas aqueles que pensam que ele não sabia nada a respeito do mensalão. Lula mentia; e há vários indícios para que acreditemos que ele ainda mente, principalmente quando algumas pessoas próximas a ele, pertencentes à cúpula do partido, estarem cumprindo pena no Complexo Penitenciário da Papuda, como o ex-guerrilheiro José Dirceu.

Isso é previsível. Ao assumir uma carreira política rumo ao poder, Lula teve que se sujar na lama organizacional que ocupa boa parte da classe política brasileira, demonstrando ainda hoje, e diante das câmeras, um orgulho de ter se sujado. Antes de chegar ao poder, a imagem do PT era limpa (ao menos a imagem). De fato, foi com a ajuda dessa imagem de combatente da corrupção e de amigos do povo que eles subiram. Hoje, no entanto, são comparados a uma quadrilha de ladrões, sendo chamados de “petralhas” aqui e acolá.

Mas pior do que a corrupção praticada pela classe política é a atitude daqueles cidadãos comuns, defensores de Lula e do PT, que no lugar de criticar o próprio Lula, por seus erros, e os membros do partido que se envolveram em corrupção, os aplaudem como heróis vítimas do sistema judiciário, como se os condenados pelo escândalo do mensalão fossem pobres coitados lutando por um país melhor, como se dilapidar o dinheiro público no intuito de se perpetuarem no poder fosse algum indício de altruísmo para com a nação.

Ou seja, o velho slogan relacionado a Ademar de Barros e mais recentemente a Paulo Maluf está bastante vivo na cabeça de muito petista: “O PT rouba, mas faz”. Eles sabem que o partido não presta, sabem que é corrupto, mas o apoia como se fosse composto por santos; e no fim das contas, o Lula não se parece tanto com “o cara” que muita gente pensa por aí.

sábado, fevereiro 01, 2014

Aborto, drogas e a lógica do desespero

Ultimamente, o lobby para a descriminalização do aborto e para a legalização da venda de drogas – especialmente a maconha – anda ocupando boa parte da agenda política de certos movimentos sociais e do debate público em geral. Apesar de serem duas demandas distintas, ambas se utilizam de discursos que, independente da validade de seus argumentos, obedecem a uma lógica do pessimismo e do desespero, ainda que possamos questionar até que ponto os próprios defensores desse lobby acreditam em suas próprias palavras ou se é apenas uma racionalização (encenação) para ludibriar os outros e validar suas intenções “libertárias”.

Em seus discursos, os lobistas demonstram sua total descrença nos métodos tradicionais de lidar com tais temas, alegando que esses métodos não são eficazes ou apresentam problemas. “Já que as mulheres estão realizando abortos clandestinos, vamos ajuda-las e descriminalizar a morte de seus filhos não nascidos em clínicas autorizadas”, diz uns. “Já que todo mundo está usando drogas ilícitas, vamos legalizar logo essas substâncias, vendendo elas em farmácias. A repressão ao narcotráfico não funcionou. É uma guerra perdida. A legalização é a solução para reduzir o crime”, dizem outros.

Estamos numa época em que se uma coisa tem um defeito, devemos descarta-la no lugar de consertá-la. Fazemos isso, seja com objetos seja com pessoas. Para alguns usarem esse mesmo pensamento em relação às leis, aos valores e à moral tradicional, é só um passo.

No entanto, é interessante como essa insistente descrença nas leis vigentes não serve para alimentar um mínimo de ceticismo a respeito de seus próprios projetos mirabolantes de descriminalização. Mas o pior de tudo é que, mesmo optando pelo descarte de uma ou outra lei, no lugar de se criar soluções alternativas e originais, se limitam a seguir a modinha da atualidade: liberar geral. É a orientação anti-proibicionista como solução para tudo.

No caso do aborto, a argumentação realmente parece ter uma preocupação legitima. As mulheres que desejarem abortar seus filhos poderão fazê-lo em hospitais e clínicas autorizadas no lugar de submeter-se a clínicas clandestinas onde as chances de algo dar errado são bem maiores. Nesse sentido, legalizar o aborto seria benéfico para essas mulheres. No entanto, essa solução – obviamente imoral – não parece ser a melhor para resolver o fato triste de que muitas mulheres estão abortando. Muita gente esquece (ou tentam nos fazer esquecer) que o problema não é a inexistência de clínicas legais especializadas em aborto, mas sim o próprio fato de essas mulheres estarem buscando o aborto fora dos casos já aceitos pela lei brasileira.

Logo, o que os ativistas favoráveis ao aborto desejam é a descriminalização plena do aborto, que poderá ser feito mediante qualquer motivo banal que vier à cabeça da mãe, coisa que nossa presidenta já era favorável bem antes de ser presidenta[1], em nome da liberdade de escolha da mulher sobre seu próprio corpo. Ocorre que esses ativistas não lembram que as mulheres já possuem essa mesma liberdade de escolha antes de ter as relações sexuais irresponsáveis que provocaram a gravidez indesejada. Afinal, não é preciso ser um gênio para saber que é bem mais fácil e sensato dizer não agora (ou usar métodos contraceptivos) do que realizar um aborto posteriormente.

A liberdade sexual como direito parece estar acima dos deveres e responsabilidades que as pessoas deveriam ter sobre o próprio corpo. A luta agora é pela institucionalização da imoralidade, pela liberdade individual irresponsável e sem culpa. Além disso, outros países mais desenvolvidos, como o Canadá, já descriminalizaram o aborto e isso deve ser bom, como acreditam alguns, como se o desenvolvimento do Canadá decorresse dessas políticas ou como se os valores alheios se justificassem pela riqueza de quem os possui. É bom ter cuidado. Sempre considerei a cautela uma virtude.

Na mídia, fazer sexo se tornou uma façanha a se orgulhar ou uma espécie de libertação em torno da qual tudo gira. Não fazer sexo se transformou em motivo para a tristeza. Em meados da década de 90, a porção mais influente da mídia brasileira começou a tratar a questão da sexualidade dos jovens e adolescentes no intuito de desmistificar (leia-se ridicularizar) a virgindade e destruir normas relacionadas à castidade e à valorização do corpo feminino, que ainda eram fortes em vários setores da sociedade brasileira, naturalmente conservadora.

Lembro-me que, na época, a telenovela Malhação seguia essa mesma linha e não tinha vergonha de explorar a imagem dos corpos dos jovens tanto nas aberturas como durante o enredo da novela. A apresentadora e cantora Xuxa também deu sua contribuição. Uma de suas músicas dizia: “Libera o corpo pra poder sentir. Os desejos, as vontades, o que pedir (libera). Canta mais alto, mostra tua voz. O que importa o que os outros vão pensar de nós. Libera geral, libera geral, libera geral (então libera)”[2]. Os adolescentes eram o alvo. Por algum motivo misterioso, a televisão e algumas revistas direcionadas para esse público diziam que eles podiam fazer sexo antes do casamento, como se isso fosse de alguma forma essencial para o crescimento deles. Liberar geral é mais exemplar do que estudar matemática.

Xuxa cantando "Libera Geral"

O fato é que não duvido que essa vanglorização do sexo sem compromisso na mídia, entre adolescentes e adultos, tenha contribuído para o aumento de quase 60% no número de mães solteiras no Brasil em 10 anos, conforme o censo do IBGE 2010. No fim das contas quem paga o pato por ideologias liberais no campo sexual sempre é a mulher, até quando ela acha que vai se dar bem.

Será que os efeitos da revolução/liberação sexual nos EUA nas décadas de 1960 e 1970 só começaram a chegar por aqui na virada do século? É provável. O fato é que a redução da apologia ao sexo na mídia já seria uma grande contribuição na redução do número de gravidezes indesejadas, as quais são a verdadeira causa dos abortos induzidos e, consequentemente, da busca por clínicas clandestinas. É claro que a mídia não possui total responsabilização, mas as pessoas de fácil manipulação, que engolem tudo o que ela dita, sim. O retorno de normas relacionadas à castidade e à valorização da mulher é uma solução moralmente mais viável e eficaz (não a única), mas nunca veremos a grande mídia fazendo uma campanha nesse sentido; muito pelo contrário, como podemos ver no sucesso de músicas e danças que pregam a promiscuidade, entre outros anti-valores. O autocontrole que se dane. O negócio é ser “vida loka”.

Já a respeito da legalização das drogas, a crença na cartilha da liberação geral encontra problemas. Por exemplo, enquanto uma miríade de empolgados, viciados e/ou intelectuais aplaudia a legalização da maconha no Uruguai, o próprio presidente Mujica, tomando chimarrão, admitiu que não sabia ao certo o que estava fazendo. “É um experimento sociopolítico frente a um problema tão grave como é o narcotráfico.”, disse[3]. O certo é que uma boa parte dos uruguaios não está gostando de ser cobaia desse experimento. Afinal, os efeitos nocivos de qualquer droga para uma sociedade são inquestionáveis[4]. Um dia desses, eu tive um debate pela Internet com um ativista que defendia a liberação da maconha se utilizando de uma analogia com as frituras: “Mesmo se a maconha for prejudicial à saúde, o governo não deveria impedir as pessoas de usá-la. Afinal, fritura faz mal e nem por isso o governo proíbe a pessoas de comer fritura”. Perguntei a ele se algum dia ele tinha ouvido falar de alguém que roubou os objetos de valor da casa dos pais ou cometeu crimes para aplacar o vício em fritura. Para não falar mais absurdos, ele não respondeu.

Diferentemente do que alegam os defensores da supremacia da liberdade individual, nunca o prejudicado é apenas o usuário. Bandidos se drogam no intuito de cometer assaltos e homicídios; pessoas morrem em decorrência de motoristas embriagados; famílias veem seus filhos se degenerando em todos os sentidos, muitos dos quais passando a cometer crimes apenas para manter o vício. Sobre esse último exemplo, é bastante sabido, ainda que muitas vezes esquecido, o fato de que o consumo de drogas não só alimenta organizações criminosas, como também transforma os usuários nos próprios criminosos, como relata a socióloga Alba Zaluar: “(...) a separação entre traficante e usuário, sombreada pelas leis pouco claras, torna-se tanto mais difícil quanto mais obcecada pela droga a pessoa é. Hoje, é fato aceito que a necessidade de pagar ao traficante leva o usuário a roubar, assaltar e algumas vezes a escalar o seu envolvimento no crime”. Não duvido que ele cometeria os mesmos crimes para pagar a uma eventual farmácia autorizada pelo governo a vender maconha.

Porque existe tanta gente que tem fé numa política de legalização que pode incentivar o agravamento da situação? Ou eles têm certeza de que essa solução é salvadora e vai resolver o problema do narcotráfico? Não acredito nessa certeza, mas acredito que a fé nessa solução pode cegá-los para a possibilidade de consequências desastrosas. Acredito que qualquer tipo de mudança significativa na legislação de um país, feita sem cautela, deveria ser acompanhada pela responsabilização a respeito de eventuais consequências nefastas dessa decisão. Seria uma forma de proteger uma nação de ideias idiotas que nascem da cabeça de eventuais porra-loucas ocupantes de cargos no poder, como é o Mujica.

Uma das formas de combater um câncer é o matando de fome. Sem o dinheiro dos usuários viciados, o narcotráfico morre. É simples. Deveria existir uma penalidade maior para quem usa drogas, pois, além disso, todo usuário é um traficante em potencial. A penalidade deve cair sobre os usuários e ela não deve vim apenas via jurídica. Todo usuário deve ser visto socialmente como um imbecil manipulado pelo narcotráfico, mas não elogiado ou ter sua atitude minimizada em várias mensagens midiáticas de apologia às drogas.

Deveria existir um controle maior em relação aos valores que os jovens estão recebendo, um controle exercido por suas famílias e nas escolas. Nesse sentido, o preconceito que existe a respeito do mundo das drogas deve ser exaltado e quanto mais ele existir na sociedade, especialmente entre os jovens, melhor, pois mais longe eles ficarão desse mundo. Quando todo jovem pensar que ser um “velho careta” é, na verdade, ser adepto do uso de maconha e de outras drogas, saberemos que estará tudo bem.





[1] Dilma Rousseff defendeu o aborto generalizado durante uma sabatina da Folha de S. Paulo em 04/10/2007, um discurso que foi alterado posteriormente em 2010 durante debates poucos dias antes das eleições, provavelmente feito apenas para ficar bem na opinião pública.
[2] A música "Libera Geral" foi lançada em 1997.
[3] Leia a matéria “Os efeitos internacionais do 'experimento' uruguaio com maconha” publicada em 11/12/2013 no site da BBC Brasil.
[4] O argumento que se utiliza de eventuais benefícios medicinais da maconha perde a força diante dos infindáveis malefícios que a mesma droga pode trazer para a saúde, como surtos psicóticos, problemas de memória, problemas de aprendizado, disfunção sexual e alguns tipos de câncer.

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